Sejamos peregrinos sobre a terra
2COR 5,6
«Por isto vivemos sempre confiados, sabendo que enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor:»
SUMÁRIO
A graça faz-nos pertencer à pátria celeste enquanto caminhamos pelo exílio.
Ponto I
Nesta vida somos peregrinos que percorrem a terra, longe de o céu, nossa pátria, em que o Senhor espera nossa chegada para gozarmos eternamente de sua bela face. enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor, escreve o Apóstolo. Se amamos a Deus, devemos conservar o desejo contínuo de sair deste exílio, separando-nos do corpo para ir vê-lo. Isso era o que São Paulo sempre suspirava, como acrescenta: Mas temos confiança, e ansiosos queremos mais ausentar-nos do corpo, e estar presentes ao Senhor.
Antes da redenção comum, estava fechado para nós, infelizes filhos de Adão, o caminho até Deus. Com sua morte, Jesus Cristo nos obteve a graça de tornar-nos filhos de Deus — deu êle poder de se fazerem filhos de Deus — e abriu as portas pelas quais podemos, como filhos, aproximar-nos do Pai: Porquanto por ele uns e outros temos entrada ao Padre em um Espírito. Por isso diz o Apóstolo: já não sois hóspedes, nem adventícios: Mas sois cidadãos dos Santos e domésticos de Deus. Estando na graça de Deus, já gozamos da cidadania do paraíso e pertencemos à sua família.
Santo Agostinho diz que a natureza corrompida pelo pecado gera cidadãos da cidade terrena, vasos de ira; a graça, libertando do pecado a natureza, gera cidadãos da pátria celeste, vasos de misericórdia. Nossa natureza nos faz cidadãos da terra e vasos de ira; a graça do Redentor, ao libertar-nos do pecado, faz-nos cidadãos do céu e vasos de misericórdia. Isso fazia Davi dizer: Eu sou peregrino na terra: Não escondas de mim os teus mandamentos. Senhor, peregrino nesta terra, ensinai-me a observar os vossos preceitos, caminho para alcançar minha pátria, o céu.
Ponto II
Não admira que os maus desejem viver sempre neste mundo: com razão temem passar das penas desta vida aos tormentos do inferno, eternos e muito mais terríveis. Mas quem ama a Deus e possui moralmente a certeza de viver na graça divina, como pode desejar continuar neste vale de lágrimas, entre amarguras, angústias de consciência e perigos de condenação? Como pode deixar de suspirar por unir-se logo a Deus na eternidade feliz, sem perigo de perdê-lo? As almas enamoradas de Deus, vivendo aqui, gemem continuamente com Davi: Ai de mim, que o meu desterro se prolongou! Infeliz quem terá de continuar muito tempo neste mundo, entre tantos perigos de perder-se! Por isso os santos repetiam sempre: Venha, venha vosso reino; depressa, Senhor, levai-nos ao vosso reino.
Apressemo-nos, entretanto, como exorta o Apóstolo, a entrar naquela pátria onde encontraremos paz e alegria perfeitas: Apressemo-nos pois a entrar naquele descanso. Apressemo-nos com o desejo e continuemos a caminhar até alcançar o porto feliz preparado por Deus para quem o ama. São João Crisóstomo escreve que quem corre não olha para os espectadores, mas para o prêmio; não para, mas intensifica a corrida. Quem disputa a corrida não atende a quem o observa, mas ao prêmio desejado. Não se detém; quanto mais se aproxima do prêmio, mais corre. Conclui o santo: quanto mais tivermos vivido, mais devemos apressar-nos, com boas obras, a conquistar o prêmio.
Nossa única súplica para aliviar as angústias e amarguras desta vida deve ser: Venha vosso reino. Senhor, venha logo vosso reino, onde, unidos eternamente a vós e amando-vos face a face com todas as nossas forças, não tenhamos temor nem perigo de perder-vos. Quando os trabalhos nos afligirem ou o mundo nos desprezar, consolemo-nos com a grande recompensa que Deus prepara a quem sofre por seu amor: Folgai naquele dia, e exultai: Porque olhai, grande é o vosso galardão no Céu. São Cipriano diz que o Senhor quer, com muita razão, nossa alegria nas tribulações e perseguições: nelas se provam os verdadeiros soldados de Deus e se distribuem coroas aos fiéis.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Deus, meu coração está pronto. Aqui me tendes, disposto a carregar toda cruz que me derdes. Não desejo delícias nem prazeres nesta vida: não merece prazeres quem vos ofendeu e mereceu o inferno. Aceito todas as doenças e adversidades que me enviais; aceito todos os desprezos humanos. Se assim vos aprouver, consinto que me priveis de todo alívio corporal ou espiritual, contanto que não me priveis de vós e de amar-vos sempre. Não mereço isso, mas espero pelo sangue derramado por mim. Meu Deus, meu amor e meu tudo, eu vos amo. Viverei eternamente e, assim espero, eternamente vos amarei. Meu paraíso será gozar de vossa alegria infinita, que bem mereceis por vossa bondade infinita.

