Incerteza da hora da morte
MC 13,33
«Estai de sobreaviso, vigiai, e orai: Porque não sabeis quando chegará êsse tempo.»
SUMÁRIO
A morte é certa, mas sua hora nos foi ocultada para que estejamos sempre preparados. A oração agradece a paciência divina e pede perdão, amor e perseverança.
Ponto I
É certo que todos morreremos; o momento, porém, permanece desconhecido. Nada é mais seguro que a morte, e nada mais incerto que sua hora, diz o autor chamado Idiota. Já estão determinados o ano, o mês, o dia, a hora e o instante em que cada um de nós deixará esta terra para entrar na eternidade; esse tempo, contudo, nos é oculto. Para que sempre estejamos preparados, o Senhor ora nos diz que a morte chegará às escondidas, como um ladrão durante a noite: «assim como costuma vir um ladrão de noite, assim virá o dia do Senhor» (1Ts 5,2); ora nos manda vigiar, porque virá julgar-nos quando menos esperarmos: «porque à hora que não cuidais, virá o Filho do homem» (Lc 12,40). São Gregório diz que Deus esconde a hora de nossa morte para nosso bem, a fim de que sempre nos ache preparados. Já que, em qualquer tempo e lugar, a morte pode tirar-nos a vida, devemos esperá-la em todo lugar e a todo momento, se desejamos morrer bem e alcançar a salvação. A morte te aguarda por toda parte, diz São Bernardo: por toda parte, aguarda-a também.
Cada pessoa sabe que morrerá. O mal é que muitas imaginam a morte tão distante que acabam por perdê-la de vista. Até a velhice mais avançada e a enfermidade mais grave ainda se iludem com a esperança de mais três ou quatro anos. Entretanto, quantas pessoas conhecemos, mesmo em nossos dias, que morreram subitamente: sentadas, andando ou dormindo em sua cama! Nenhuma delas julgava morrer tão de repente, naquele mesmo dia. Daquelas pessoas que morreram este ano em sua própria cama, nenhuma julgava que o mesmo ano veria terminar seus dias. Poucas mortes deixam de ser inesperadas.
Quando, pois, o demônio te convidar ao pecado, dizendo que amanhã poderás confessar-te, responde: como sei que hoje não é o último dia de minha vida? Se esta hora, este instante em que eu desse as costas a Deus, fosse o meu último, e já não houvesse tempo de reparar o mal, qual seria meu destino eterno? Quantos pobres pecadores, no próprio instante em que provavam uma isca envenenada, foram surpreendidos pela morte e enviados ao inferno! «do modo que os peixes são apanhados no anzol, e assim como as aves caem no laço, assim os homens se acham presos no tempo mau» (Ecl 9,12). O tempo mau é precisamente aquele em que o pecador está ofendendo a Deus. O demônio diz que tal desgraça não te acontecerá; tu, porém, deves perguntar: e se acontecer, que será de mim por toda a eternidade?
AFETOS E ORAÇÕES
Senhor, nesta hora, o lugar que me caberia não seria aquele em que estou, mas o inferno, que mereci tantas vezes com meus pecados: «o sepulcro será a minha casa» (Jó 17,13). São Pedro, contudo, me recorda que vós tendes paciência para conosco, sem querer que ninguém pereça, mas que todos voltem à penitência (2Pd 3,9). Tivestes, pois, tanta paciência comigo e me aguardastes porque não quereis minha perdição, mas meu retorno pela penitência. Sim, meu Deus, volto a vós; lanço-me a vossos pés e imploro piedade: «Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia» (Sl 50,3).
Para me perdoardes, Senhor, é necessária uma misericórdia grande e extraordinária: ofendi-vos apesar da luz que recebia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não receberam a luz que me concedestes. Ainda assim, ordenais que me arrependa e espere de vós o perdão. Meu querido Redentor, pesa-me de todo o coração ter-vos ofendido; nos merecimentos da vossa Paixão fundamento minha esperança de receber o perdão. Embora inocente, quisestes morrer na cruz como réu e derramar todo o vosso sangue para lavar meus pecados. Ó sangue inocente, lava as culpas de quem se arrepende. Pai eterno, perdoai-me pelo amor de Jesus Cristo. Ouvi suas súplicas, pois agora ele intercede por mim como meu advogado.
Ó Deus digno de infinito amor, além do perdão, peço outra graça: poder amar-vos. Eu vos amo, Bem supremo, e desde hoje vos ofereço corpo, alma, vontade e liberdade. Quero evitar, daqui em diante, não só as ofensas graves, mas também as leves; quero fugir de toda ocasião má. «E não nos deixeis cair em tentação» (Mt 6,13). Pelo amor de Jesus Cristo, livrai-me das ocasiões em que poderia ofender-vos. «Mas livrai-nos do mal». Livrai-me do pecado e depois castigai-me como quiserdes. Aceito as enfermidades, dores e perdas que desejardes enviar-me; basta que não me faltem a vossa graça e o vosso amor. Prometestes dar o que vos é pedido: «Pedi, e recebereis» (Jo 16,24). Peço-vos estes dois dons: santa perseverança e amor para convosco. Ó Maria, Mãe de misericórdia, rogai por mim; em vós deposito confiança.

