Morte feliz das pessoas consagradas
AP 14,13
«Então ouvi uma voz do céu que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos, que morrem no Senhor. De hoje em diante diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos: Porque as obras deles os seguem.»
SUMÁRIO
A lembrança da morte ajuda a discernir a vocação e a vencer as tentações. Santo Afonso recorda a paz de quem renunciou ao mundo para servir a Deus e pede a graça de morrer em seu amor.
Ponto I
«Bem-aventurados os mortos, que morrem no Senhor» (Ap 14,13). Quem são esses mortos ditosos que morrem no Senhor, senão as pessoas religiosas que, ao chegar ao fim da vida, já morreram para o mundo, tendo renunciado a ele e a todos os seus bens mediante os santos votos? Considera, ó alma, a alegria que terás se, obedecendo à tua vocação, chegares ao fim da vida na casa divina. O demônio procurará convencer-te que, depois de entrar ali, talvez te arrependas de abandonar a casa e a pátria, ou de privar teus parentes dos benefícios que esperavam receber de ti. Pergunta, porém, a ti: na hora da morte, terei arrependimento ou alegria por haver cumprido minha resolução?
Peço-te, por isso, que te representes agora à beira da morte, prestes a comparecer perante o tribunal de Jesus Cristo. Naquela situação, o que mais desejarias ter feito? Ter contentado os parentes, favorecido a família e tua terra, para morrer entre irmãos, sobrinhos e cunhados, depois de viver em casa com as honras de pároco, cônego, bispo ou ministro, fazendo a própria vontade? Ou morrer na casa de Deus, com a assistência de teus bons irmãos de religião, que te encorajam para a grande passagem, depois de passar muitos anos na vida religiosa, na humildade, na mortificação, sem bens, longe dos parentes, renunciando à vontade própria pela obediência e desprendendo-te de tudo o que é terreno? Todas essas coisas tornam a morte doce e amável. Quem se habituou a privar-se dos prazeres do mundo não sentirá pena ao deixá-lo, diz São Bernardo.
Ao morrer, o papa Honório II desejava ter permanecido em seu mosteiro, lavando pratos, em vez de ter sido papa. Filipe II desejava ter servido a Deus como irmão leigo numa ordem religiosa, em vez de ter sido rei. Filipe III, também rei da Espanha, dizia ao morrer: quem me dera ter servido a Deus num deserto e não ter sido monarca; assim, minha confiança seria maior ao comparecer agora ante Jesus Cristo, meu Juiz! Quando, pois, o inferno te tentar a respeito da vocação, pensa na tua morte e coloca-te junto daquele grande momento do qual depende a eternidade. Desse modo vencerás as tentações, permanecerás na fidelidade a Deus e, na hora da morte, certamente não sentirás arrependimento: darás sempre graças ao Senhor, e terás alegria na vida e na morte.
Ponto II
Geraldo, irmão de São Bernardo, morreu cantando, ao pensar que morria na casa de Deus. O padre Suárez, da Companhia de Jesus, sentia tanta consolação e doçura ao morrer na vida religiosa que dizia: não julgava ser tão doce morrer. Outro bom religioso da mesma Companhia ria na hora da morte. Quando lhe perguntaram a razão, respondeu: como não hei de rir? O próprio Jesus Cristo não prometeu o paraíso a quem tudo abandona por seu amor? Não foi ele quem disse: «E todo o que deixar por amor do meu Nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as fazendas, receberá cento por um, e possuirá a vida eterna» (Mt 19,29)? Já deixei tudo por Deus; Deus é fiel, e não pode faltar ao que prometeu. Como não hei de alegrar-me e rir, vendo o paraíso assegurado para mim?
Um irmão leigo, falecido há alguns anos, ouviu na hora da morte a pergunta sobre o que mais desejava. Nada mais desejo, respondeu, senão morrer e unir-me a Deus. O padre dom Gennaro Sarnelli, pouco antes de falecer, disse a Deus: Senhor, vós sabeis que tudo quanto fiz e pensei foi para a vossa glória; agora suspiro por ir contemplar-vos face a face, se assim vos aprouver. Depois acrescentou: vamos, quero entrar numa doce agonia. Começou então a entreter-se em suaves colóquios com Deus e, pouco depois, expirou serenamente. Ficou-lhe nos lábios um sorriso, e seu corpo começou a exalar um perfume suave, que, segundo os testemunhos, ainda se sentiu por vários dias no aposento onde morreu.
Bem tinha razão São Bernardo, ao falar do feliz estado religioso, para exclamar: ó vida segura, na qual se aguarda a morte sem medo; antes, com doçura se deseja sua vinda, e com devoção se acolhe!
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Senhor Jesus Cristo, para me alcançardes uma boa morte, escolhestes uma morte tão amarga. Foi tal o vosso amor para comigo que me escolhestes para acompanhar mais de perto a vossa vida santa, desejando-me em união mais íntima com o vosso coração enamorado; prendei-me agora inteiramente a vós, eu vos peço, com as suaves cadeias do vosso amor, para que nunca mais vos deixe. Meu amado Redentor, desejo agradecer-vos e corresponder a tão grande graça; receio, porém, que a minha fraqueza me leve à infidelidade. Jesus meu, não o deixeis acontecer: dai-me antes a morte, para que não vos abandone nem esqueça o amor especial com que me favorecestes.
Eu vos amo, querido Salvador. Somente vós tendes, e sempre tereis, o senhorio de minha alma e de meu coração. Abandono tudo e escolho somente a vós para meu tesouro, ó puríssimo Cordeiro de Deus, ó vós que tão ardentemente me amais: «O meu amado é cândido, e rubicundo, escolhido entre milhares» (Ct 5,10). Afastai-vos, criaturas: o único bem que possuo é meu Deus; ele é meu amor, meu tudo. Jesus meu, eu vos amo, e quero gastar em vos amar toda a vida que me resta, breve ou longa. Abraço-vos, estreito-vos ao coração e quero morrer em vosso abraço. Peço-vos essa graça, nenhuma outra desejo: fazei que eu viva sempre ardendo no vosso amor e, quando chegar o fim da vida, dai-me a graça de expirar num ardente ato de amor para convosco. Virgem Imaculada Maria, alcançai-me esse favor: de vós o espero.

