A tristeza do Coração de Jesus no seio da Virgem Maria
HB 10,5
«Vós não quisestes hóstia nem oblação: mas me formastes um corpo.»
SUMÁRIO
Consideração sobre a amargura que inundou o Coração de Jesus desde o seio materno, ao acolher a obediência de morrer na cruz em expiação dos pecados humanos, aceitando ser tratado como escravo para nos livrar do demônio.
Ponto I
Considerai a grande amargura que afligiu e oprimiu o Coração de Jesus Menino no ventre de Maria, naquele primeiro instante em que o Pai lhe apresentou toda a série de desprezos, dores e agonias que deveria sofrer durante a vida para libertar os homens de suas misérias. «pela manhã me levanta o ouvido»; «não contradigo»; «entreguei o meu corpo aos que me feriam»: assim falou Jesus pela boca do profeta. Desde o primeiro momento da minha concepção, meu Pai fez-me conhecer a sua vontade: eu levaria uma existência de sofrimento e, por fim, seria sacrificado na cruz. Tudo aceitei para a vossa salvação, ó almas, e desde então entreguei meu corpo aos açoites, aos cravos e à morte.
Ponderai que tudo quanto Jesus Cristo sofreu na vida e na paixão lhe foi posto diante dos olhos quando ainda estava no seio de sua Mãe, e tudo aceitou com amor. Ao aceitar, porém, e vencer a repugnância natural dos sentidos, que angústia e opressão não sofreu o inocente Coração de Jesus! Conhecia bem o que primeiro padeceria ao permanecer nove meses estreitado naquela prisão escura do ventre de Maria; ao sofrer as afrontas e penas do nascimento numa gruta fria, estábulo de animais; ao passar depois trinta anos numa oficina de artesão, em condição desprezada. Via que os homens o tratariam como ignorante, escravo, sedutor e réu de morte, da morte mais infame e dolorosa aplicada aos malfeitores.
Tudo aceitava, a cada instante, o nosso amoroso Redentor; mas, a cada instante em que aceitava, sofria juntamente todas as penas e humilhações que depois suportaria até morrer. O conhecimento da própria dignidade divina tornava mais sensíveis as ofensas que receberia dos homens. «A minha ignomínia está todo o dia diante de mim». Tinha continuamente diante dos olhos a sua vergonha, sobretudo aquela de um dia ver-se despido, flagelado, suspenso por três cravos de ferro, para assim acabar a vida entre insultos e maldições dos mesmos homens por quem morria: «Feito obediente até à morte, e morte de cruz». Por quê? Para salvar a nós, pobres pecadores sem gratidão.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu amado Redentor, quanto vos custou, desde a primeira entrada no mundo, levantar-me da ruína que provoquei com meus pecados! Para me libertar da escravidão do demônio, a quem voluntariamente me vendi ao pecar, aceitastes ser tratado como o pior dos escravos. E eu, sabendo disso, tive coragem de causar tantas amarguras a esse vosso Coração amabilíssimo, cujo amor por mim foi tão grande!
Meu Deus, vós sois inocente e, por me amardes, aceitastes viver e morrer em tamanho sofrimento. Eu aceito por vosso amor, meu Jesus, todas as penas que vossas mãos me enviarem. Quero aceitá-las e abraçá-las, porque vem daquelas mãos que um dia foram traspassadas para me livrar do inferno, tantas vezes merecido. O vosso amor, meu Redentor, ao oferecerdes tantos sofrimentos por mim, obriga-me imensamente a aceitar por vós qualquer pena e desprezo.
Meu Senhor, pelos vossos merecimentos, dai-me o vosso santo amor. Esse amor tornará doces e amáveis todas as dores e humilhações. Amo-vos acima de tudo, com todo o coração, mais que a mim. Entretanto, durante toda a vossa vida me destes tantas e tão grandes provas do vosso afeto; e eu vivi tantos anos neste mundo sem gratidão: que prova de amor vos dei até agora? Fazei, meu Deus, que nos anos que me restam vos demonstre algum sinal de meu amor. Não ouso apresentar-me diante de vós quando vierdes julgar-me com esta pobreza de agora, sem ter feito coisa alguma por vosso amor. Contudo, sem a vossa graça, que poderei fazer? Só posso pedir o vosso socorro, e até esta oração é graça vossa. Meu Jesus, socorrei-me pelos merecimentos das vossas dores e do sangue derramado por mim.
Maria Santíssima, pelo amor que tendes ao vosso Filho, recomendai-me a ele. Vede que sou uma das ovelhas pelas quais vosso Filho morreu.

