O pecado de Adão e o amor de Deus pelos homens
IS 52,5
«E agora que tenho eu que fazer aqui, diz o Senhor, visto ter sido levado sem nenhuma razão o meu povo?»
SUMÁRIO
Adão peca e perde o jardim das delícias para si e para a sua linhagem, ficando privada da bem-aventurança eterna. Deus, porém, compadecendo-se da miséria humana e declarando que as suas delícias são estar com a humanidade, resolve enviar um Redentor para satisfazer à divina justiça.
Ponto I
Adão, nosso primeiro pai, peca: ingrato a tantos benefícios concedidos por Deus, revolta-se contra o seu Criador, desobedecendo ao mandamento que lhe proibia comer do fruto vedado. Por esse motivo vê-se Deus na necessidade de o expulsar desta terra do paraíso terrestre e de privar no porvir tanto Adão quanto toda a sua descendência do reino celestial e eterno, que lhes havia preparado após este curso temporal. Eis, portanto, o gênero humano condenado a uma existência cheia de dores e misérias, para sempre afastado do Céu.
Contudo, o Senhor, consoante nos ensina o profeta Isaías, como que enternecido se lamenta com aflição, exclamando: «E agora que tenho eu que fazer aqui, diz o Senhor, visto ter sido levado sem nenhuma razão o meu povo?» (Is 52,5). É como se dissesse: Que contentamento me restou na glória eterna, agora que perdi os seres humanos que constituíam as minhas delícias? «As minhas delícias consistem em estar com os filhos dos homens» (Pr 8,31). Mas como, ó soberano Senhor, possuindo vós nos céus tantos serafins e anjos, tanto vos confrange terdes perdido os homens? De que careceis vós das criaturas para complemento da vossa beatitude infinita? Sempre fostes em vós mesmo perfeitamente venturoso; que vos poderia faltar? Tudo é exato, responde o Cardeal Hugo comentando o profeta, mas perdendo a humanidade, parece ao Senhor ter perdido tudo, pois a sua satisfação era conviver conosco, e agora esses pobres mortais acham-se condenados a viver longe da sua presença.
Como pode, todavia, o Senhor afirmar que os seres humanos são o seu encanto? Sim, atesta Santo Tomás: Deus ama o homem como se este fora o seu próprio Deus e como se a Divindade não pudesse ser ditosa sem ele. E São Gregório Nazianzeno acrescenta que Deus, pela grandeza da caridade que nos dedica, parece haver saído de si mesmo: o amor arrebata o amante para fora de si. Mas Deus não quis que perecêssemos; determinou que se buscasse um Redentor que satisfizesse à justiça eterna e resgatasse o pecador da morte sem fim.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó meu compassivo Redentor, como pude tantas vezes renovar com minhas culpas as desgraças que vós viestes sanar pela vossa paixão? Vós vos empenhastes em salvar-me à custa da vossa vida, e eu tantas vezes preferi apartar-me de vós, Sumo Bem. Mas confio na vossa palavra cheia de misericórdia, que assegura que acolhereis com benevolência todo aquele que se converter de coração: Convertei-vos a mim e eu me voltarei para vós. Eis aqui uma alma arrependida que a vós regressa humilhada. Pesa-me de haver ofendido a vossa infinita majestade e desprezado a vossa graça. Amo-vos sobre tudo o que existe e abro-vos inteiramente as portas do meu coração: entrai, Senhor, e tomai dele posse para todo o sempre.
Ó Jesus, bem sei que de mim não vos afastareis se eu não tornar a repelir-vos com novas iniquidades; concedei-me, pois, antes morrer do que cometer tal perfídia. Fazei-me conhecer quanto sois amável e quanto fizestes para atrair o meu afeto. Quero consagrar todos os dias da minha peregrinação a amar-vos e comprazer-vos. Maria, Mãe de Deus e refúgio dos pecadores, alcançai-me de vosso amado Filho o dom do seu perpétuo amor.

