Na morte tudo acaba
JÓ 17,1
«O meu espírito se vai atenuando, os meus dias se abreviam, e só me resta o sepulcro.»
SUMÁRIO
A glória deste mundo passa como um sonho que se desfaz ao despertar. Pensar que na morte tudo acaba desengana o coração e leva a alma a dar-se inteiramente a Deus.
Ponto I
Davi chamou à felicidade da vida presente um sonho de quem desperta: «Como sonho dos que despertam, tornarás, Senhor, em nada a imagem dêles, na tua cidade.» (Sl 72,20). Os bens desta terra afiguram-se grandes e valiosos enquanto duram as ilusões dos sentidos, mas na realidade não são nada e passam com extrema rapidez, à semelhança de um sonho que logo se dissipa. Foi essa profunda reflexão — que com a morte tudo tem fim — que determinou São Francisco de Borja a consagrar-se sem reserva a Deus. Ao acompanhar a Granada os despojos mortais da imperatriz Isabel e presenciar o caixão aberto, enquanto todos fugiam diante do horror e do mau cheiro da corrupção, o santo deteve-se com o coração iluminado pela luz celeste a contemplar a fragilidade humana.
Fitando aquele cadáver inerte, exclamou enternecido: Vós éreis a imperatriz a quem tantos nobres rendiam vassalagem? Onde estão agora, nobre senhora, vossa formosura e vossa soberania? E concluiu para consigo mesmo: É desta maneira que perecem as grandezas, as honrarias e os cetros terrestres! Não quero mais servir senão a um Senhor que não possa morrer. Desde aquele momento consagrou-se inteiramente ao Redentor crucificado, obrigando-se sob voto a abraçar a vida claustral se ficasse viúvo, como com efeito realizou ao ingressar na Companhia de Jesus.
Com muita razão escreveu um homem desenganado do século sobre a caveira de um defunto estas palavras admiráveis: «Para quem pensa, tudo se torna vil». Quem reflete com frequência na morte não pode prender seu coração às vaidades do mundo. E se tantas almas vivem infelizes e apegadas à terra, é porque fecham os olhos a essa tremenda certeza e não se lembram de que tudo quanto amam há de perecer num instante.
Ponto II
Considerai que aquilo que aconteceu a nossos antepassados há de suceder também a nós. Eles habitaram as mesmas casas, repousaram nos mesmos leitos e desfrutaram dos mesmos bens materiais; hoje, porém, jazem na escuridão da sepultura e nada mais lhes resta deste século passageiro. O mesmo destino nos aguarda, talvez muito mais depressa do que supomos. Por que havemos, pois, de nos cansar em ajuntar tesouros terrenos que teremos de abandonar forçosamente, em vez de acumular bens para a vida eterna?
Irmãos caríssimos, cuidai de vos dar inteiramente a Deus antes que vos surpreenda o golpe supremo da morte. Não adieis para amanhã a emenda de vossa conduta, porque o dia presente foge ligeiro e nunca mais há de voltar, e amanhã podereis já estar chamados a comparecer perante o tribunal do Juiz soberano. Por terem adiado sua conversão para um tempo futuro que não lhes pertenceu, quantas almas miseráveis gemem agora no abismo infernal! Desprendei o coração de tudo quanto vos pode separar da graça divina. Felizes aqueles que morrem já desapegados dos afetos do mundo; para essas almas a morte não é perda, mas princípio da posse segura do Bem infinito.
AFETOS E ORAÇÕES
Amado Redentor meu, agradeço-vos por me haverdes esperado com tanta paciência e misericórdia. Onde estaria agora a minha alma, se me tivésseis chamado a julgamento quando vivia longe de vós e mergulhado na culpa? Bendigo a vossa divina clemência que por tantos anos me tolerou. Reconheço com profunda dor quanto vos ofendi, Sumo Bem, tão digno de reverência e amor. Arrependo-me de coração de todas as minhas ingratidões passadas. Mais do que qualquer sofrimento, aflige-me a lembrança de haver entristecido a vossa imensa bondade. Fazei-me antes perder a vida do que incorrer novamente no perigo de perder a vossa amizade. Vós destes a vida por mim; eu desejo dar-vos todo o meu amor e a minha vontade. Maria, Mãe de Deus e esperança minha, intercedei por mim para que persevere até a morte na graça de vosso divino Filho.

