Sétima palavra de Jesus Cristo na cruz
LC 23,46
«E Jesus dando um grande brado, disse: Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito. E dizendo estas palavras, expirou.»
SUMÁRIO
Ao soltar um grande brado antes de expirar, Jesus entregou livremente sua alma ao Pai celestial e encomendou nele a salvação de todos os remidos.
Ponto I
Clamando com grande voz, disse Jesus: «E Jesus dando um grande brado, disse: Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito. E dizendo estas palavras, expirou.» (Lc 23,46). Afirma o comentador Eutíquio que o Salvador proferiu este encarecido brado para manifestar publicamente a sua dignidade de Filho unigênito, invocando abertamente o Altíssimo como seu Pai. São João Crisóstomo acrescenta que ele soltou tão forte clamor para demonstrar com clareza que não expirava por fraqueza imposta, mas por ato supremo de sua própria deliberação soberana, despedindo a alma enquanto guardava vigor de voz no ápice do suplicio. Isso confirma exatamente a declaração que proferira durante a vida mortal: «Assim como o Pai me conhece, e eu conheço ao Pai: E dou a minha vida pelas ovelhas. Ninguém a tira de mim, mas eu próprio a ponho: Tenho poder para a pôr, e tenho poder para a retomar: Este mandado recebi de meu Pai.» (Jo 10,15.18).
Ensina ademais Santo Atanásio que, confiando o próprio espírito nas mãos paternas de Deus, Jesus confiava juntamente todos os membros de seu Corpo místico, ou seja, a multidão dos fiéis chamados a partilhar os frutos de sua paixão. Sendo a cabeça e os membros um só todo indivisível, Cristo entregava a humanidade remida ao patrocínio eterno do Pai, renovando aquela prece sacerdotal manifestada no cenáculo: «E eu não estou jamais no mundo, mas êles estão no mundo, e eu vou para ti. Padre Santo, guarda em teu Nome aqueles que me deste: Para que êles sejam um, assim como também nós.» (Jo 17,11).
Ponto II
Essa inquebrantável certeza confortava o apóstolo São Paulo nas cadeias, levando-o a escrever: «Porque eu sei a quem tenho crido, e estou certo que ele é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia» (2 Tm 1,12). Entregava com firme esperança nas mãos do Redentor o depósito de seus sofrimentos e fadigas apostólicas, confiando na fidelidade de quem generosamente retribui os seus servos. Davi já havia expressado outrora esse ato de piedosa esperança na providência futura: «Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: Tu me remiste, Senhor Deus da verdade.» (Sl 30,6).
Com quão maior segurança e consolador júbilo não nos cabe a nós renovar essa entrega nas mãos de Jesus, que já completou o sacrifício de nossa salvação! Digamos com santo ânimo: Remistes-me, Senhor, por vosso sangue; entrego o meu espírito nas vossas mãos misericordiosas. Tais palavras constituem admirável consolo para a hora de nossa agonia, dispersando os assaltos do inimigo infernal e aquietando os temores que brotam das ofensas cometidas contra a majestade divina.
AFETOS E ORAÇÕES
Não quero, doce Redentor meu, postergar até à hora de minha morte a entrega de minha alma; consagro-a desde este instante às vossas mãos paternas. Não permitais que eu venha outra vez a apartar-me de vosso divino amor. Visto que em anos passados tantas vezes vos ofendi, guardai-me com constante benevolência para que eu não volte a desagradar-vos no tempo vindouro. Cordeiro dulcíssimo sacrificado sobre o madeiro para apagar as iniquidades do mundo, fazei que pelos merecimentos de vossa sagrada expiração eu viva abrasado em vossa afeição e expire repetindo vossas santas palavras: «Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: Tu me remiste, Senhor Deus da verdade.» (Sl 30,6). Ó Maria, Mãe de misericórdia, amparai-me com vossas preces, para que eu viva e expire consagrado ao amor de vosso Filho.

