Sexta palavra de Jesus Cristo na cruz
JO 19,30
«Jesus porém havendo tomado o vinagre, disse: Tudo está cumprido. E abaixando a cabeça, rendeu o espírito.»
SUMÁRIO
Proclamando consumada a obra da redenção, Jesus ensina-nos a perseverar na virtude e no combate espiritual até ao último instante da vida.
Ponto I
Relata São João que, havendo provado o vinagre, exclamou o Salvador: «Jesus porém havendo tomado o vinagre, disse: Tudo está cumprido. E abaixando a cabeça, rendeu o espírito.» (Jo 19,30). Naquele momento augusto, antes de reclinar a cabeça e expirar, Jesus colocou diante dos olhos todas as figuras do Antigo Testamento, todos os oráculos dos profetas e cada um dos tormentos e opróbrios preditos sobre a sua pessoa; e, contemplando que a dívida dos homens fora cabalmente satisfeita e que nada mais restava a sofrer, pronunciou a palavra definitiva da reconciliação: Tudo está consumado.
São Paulo anima-nos a enfrentar com generosidade e paciência as pelejas desta peregrinação terrena: «E por isso, tendo também posta sobre nós uma tão grande nuvem de testemunhas, deixando todo o pêso que nos detém e o pecado que nos cerca, corramos pela paciência ao combate que nos está proposto. Pondo os olhos no Autor e consumador da fé, " Jesus, o qual, havendo-lhe sido proposto gõzo, sofreu a Cruz, desprezando a ignomínia, e está assentado a direita do trono de Deus.» (Hb 12,1-2). Exorta-nos o Apóstolo a resistir às tentações com fidelidade constante, a exemplo de Cristo que não desceu da cruz senão depois de consumar o sacrifício. Santo Agostinho interroga: Que vos ensinou do alto do madeiro aquele que recusou descer dele, senão a serdes fortes no vosso Deus? A coroa da glória está reservada tão somente aos perseverantes: «E vós por causa do meu nome sereis o ódio de todos: Aquele porém que perseverar até ao fim, êsse é o que será salvo.» (Mt 10,22).
Ponto II
Quando, portanto, nos sentirmos combatidos pelas paixões interiores, pelos ardis do adversário ou pelas perseguições alheias, volvamos os nossos olhares para o divino Crucificado, que verteu todo o seu sangue por nossa salvação; e lembremo-nos da palavra do Apóstolo: «Pois ainda não tendes resistido até derramar o sangue, combatendo contra o pecado:» (Hb 12,4).
Se for necessário reprimir um ímpeto de amor-próprio, relevar uma ofensa ou abrir mão de um entretenimento mundano para guardar a graça santificante, envergonhemo-nos de negar essa pequena prova de fidelidade a um Deus que nada nos poupou. Não confiemos em nossas próprias forças, mas estejamos certos da vitória pela virtude daquele que nos amou: «Tudo posso naquele que me conforta.» (Fl 4,13). Suportemos com amor as cruzes presentes, consolados pela contemplação das santas chagas de nosso Redentor.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Jesus meu, vós me colocastes neste mundo com a vocação de vos servir e amar com fidelidade. Concedestes-me luzes e auxílios copiosos para perseverar na vossa amizade; eu porém, cego e ingrato, tantas vezes preferi as satisfações terrenas à vossa divina graça. Suplico-vos, pelos merecimentos dessa redenção consumada no suplício da cruz, concedei-me firmeza para expulsar de meu peito todo afeto que não seja de vosso amor. Desejo pertencer-vos inteiramente nos dias que ainda me restarem sobre a terra. Maria, Rainha do Calvário, ajudai-me a permanecer constante até ao fim no serviço de vosso divino Filho.

