Fins da oração mental
SL 38,4
«O meu coração se escandeceu dentro de mim: E na minha meditação se incenderá fogo.»
SUMÁRIO
A oração mental une a alma a Deus, alcança as graças necessárias e ensina sua vontade. A perseverança na aridez vale mais que a busca de consolações.
Ponto I
Para fazer bem a oração mental e dela colher grande proveito para a alma, devemos estabelecer o fim com que pretendemos fazê-la. Primeiro, devemos fazer oração para unir-nos mais a Deus. Essa união provém menos dos bons pensamentos do entendimento que dos bons atos da vontade, ou santos afetos, que nos ligam a Deus. Esses são os afetos exercitados na meditação: humildade, confiança, desapego, resignação e, sobretudo, amor e arrependimento das próprias culpas. Os atos de amor, diz Santa Teresa, mantêm o coração aceso no santo amor.
Segundo, devemos fazer oração para alcançar de Deus as graças necessárias para avançar no caminho da salvação, especialmente a iluminação divina necessária para fugir dos pecados e escolher os recursos que nos levam à perfeição. O maior fruto da oração mental é, pois, exercitar as súplicas. Deus, ordinariamente falando, só concede as graças a quem reza. São Gregório escreve: «Deus deseja que o supliquemos, que o constranjamos e que o vençamos por uma certa insistência». Note-se: «vencido pela insistência». Às vezes, para obter certas graças de maior valor, não bastará simplesmente pedir; será preciso insistir, como que forçando Deus, mediante as orações, a concedê-las. É verdade que o Senhor está sempre pronto a ouvir-nos; no tempo da oração mental, porém, quando estamos mais recolhidos com Deus, ele dispensa seus auxílios com maior liberalidade.
Sobretudo, devemos cuidar de pedir-lhe na oração a perseverança e o seu santo amor. A perseverança final não é uma graça somente, mas uma cadeia de graças, à qual deve corresponder a cadeia das nossas preces. Se deixarmos de rezar, Deus deixará de dar-nos seus auxílios, e assim estaremos perdidos. Quem não faz oração mental dificilmente persevera na graça de Deus até a morte. Dom Palafox, nas anotações às cartas de Santa Teresa, escreveu: «Como o Senhor nos dará a perseverança, se não lha pedimos? E como a pediremos sem a oração mental?» Sem a oração mental, diz ele, não há comunicação com Deus.
Também devemos insistir nas preces para obter de Deus seu amor divino. Dizia São Francisco de Sales que ao santo amor se unem todas as virtudes: «E todos os bens me vieram juntamente com ela, e inumeráveis riquezas por suas mãos,» (Sb 7,11). Com a caridade chegam à alma todos os bens. Seja, portanto, contínua a nossa súplica pela perseverança e pelo amor. Para fazê-la com maior confiança, recordemos sempre a promessa de Jesus Cristo: tudo o que pedirmos a Deus pelos méritos do seu Filho, ele nos dará. «E naquele dia nada mais me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: Se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, êle vo-la-á de dar.» (Jo 16,23). Rezemos, pois, e rezemos sempre, se queremos que Deus nos dispense todo bem. Rezemos por nós e, se temos zelo pela glória de Deus, também pelas outras pessoas. Muito agrada a Deus ser rogado pelos infiéis, hereges e todos os pecadores: «Glorifiquem-te a ti, ó Deus, os povos: glorifiquem-te os povos todos.» (Sl 66,4). Digamos: Senhor, fazei-vos conhecer e amar. Leia-se nas vidas de Santa Teresa e de Santa Maria Madalena de Pazzi quanto Deus recomendou a essas santas que rezassem pelos pecadores. À oração pelos pecadores unamos também a oração pelas santas almas do purgatório.
Terceiro, devemos ir à oração mental para entender nela o que Deus quer de nós, principalmente, e não para sentir consolações espirituais. Digamos a Deus com Samuel: «E veio o Senhor, e parou: e chamou como tinha feito das outras vezes: Samuel, Samuel. E respondeu-lhe Samuel: Fala, Senhor, porque o teu servo ouve.» (1 Sm 3,10). Senhor, revelai-me aquilo que de mim desejais, pois quero fazê-lo. Algumas pessoas perseveram na oração enquanto duram as consolações; quando elas cessam, abandonam a oração. É verdade que Deus costuma consolar nela suas almas amadas e fazê-las saborear algo das delícias que prepara no céu para quem o ama. Isso não compreendem as pessoas que amam o mundo: habituadas a não sentir outro sabor além dos prazeres terrenos, desprezam os celestes. Ah, se os provassem, certamente deixariam todos os prazeres para recolher-se numa cela e falar a sós com Deus!
A oração mental não é outra coisa senão um colóquio entre a alma e Deus. A alma lhe expõe seus afetos, desejos, temores e pedidos; Deus lhe fala ao coração, dando-lhe a conhecer sua bondade, o amor que lhe dedica e aquilo que deve fazer para agradar-lhe. Diz o Senhor (Os 2,14): «Portanto, eis-aqui estou eu que a atrairei docemente a mim, e a levarei à soledadc: E lhe falarei ao coração.». Essas delícias, porém, nem sempre são sentidas: as almas santas, na maior parte das vezes, padecem aridez na oração. «Com aridez e tentações», escreve Santa Teresa, «o Senhor prova quem o ama». E acrescenta: «Embora a aridez dure toda a vida, a alma não abandone a oração: virá tempo em que tudo lhe será muito bem pago».
O tempo de aridez é tempo de maior lucro. Humilhemo-nos então e resignemo-nos, vendo-nos sem fervor, sem desejos e quase incapazes de fazer um ato bom. Humilhemo-nos, digo, e resignemo-nos: essa oração dará mais fruto que as outras. Basta dizer, quando não podemos dizer mais: Senhor, ajudai-me; olhai-me com piedade e não me deixeis. Recorramos também à consoladora Maria Santíssima. Feliz quem não abandona a oração em meio à desolação! Deus o cumulará de graças.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Deus, como posso pretender receber de vós consolações? Eu, que a esta hora merecia encontrar-me no inferno, eternamente afastado de vós, sem esperança de poder ainda amar-vos! Não me queixo, meu Senhor, de me privardes de vossas consolações; nem tenho merecimento para elas, nem as pretendo. Basta-me saber que não rejeitais uma alma que vos tem amor. Não me deixeis sem poder amar-vos; depois tratai-me como quereis. Se quereis conservar-me assim em aflição e desolação até morrer e ao longo da eternidade inteira, aceito: basta poder dizer-vos com verdade: Meu Deus, eu vos amo, eu vos amo. Maria, Mãe de Deus, olhai para mim com piedade.

