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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Da eternidade do inferno

QUARTA-FEIRA, 25 DE AGOSTO · SÃO LUÍS, REI

Da eternidade do inferno

MT 25,46

«E irão êstes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.»

SUMÁRIO

As penas do inferno não têm fim. A alma agradece a paciência de Deus e pede a graça de não tornar a ofendê-lo.

Ponto I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. Uma pena que não dura muito não é grande pena. Abre-se um abscesso numa pessoa enferma, cauteriza-se uma gangrena noutra: a dor é grande, mas, como termina em breve, não é grande tormento. Que pena seria, porém, se aquele corte ou aquela operação pelo fogo continuasse durante uma semana, durante um mês inteiro? Quando a pena é muito prolongada, ainda que leve, como uma dor de olhos ou de dentes, torna-se insuportável. Mas que digo, dor? Até uma comédia ou uma música que durasse demais, ou durante um dia inteiro, seria insuportável pelo tédio. E se durasse um mês? Um ano?

Que será o inferno? Ali não se ouve sempre a mesma comédia ou a mesma música, não há apenas dor de olhos ou de dentes, nem somente o tormento de um corte ou de um ferro em brasa: há todos os tormentos, todas as dores. E durante quanto tempo? Pela eternidade inteira: «como o falso profeta serão atormentados de dia e de noite por séculos dos séculos.» (Ap 20,10). Essa eternidade é de fé; é verdade atestada por Deus em tantas passagens das Escrituras, e não uma opinião: «Então dirá também aos que hão de estar à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo, e para os seus anjos:» (Mt 25,41). «E irão êstes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.» (Mt 25,46). «Os quais pagarão a pena eterna: de perdição ante a face do Senhor, e a glória do seu poder:» (2 Ts 1,9). «Porque todos êles serão salgados no fogo, e tôda a vítima será salgada com sal.» (Mc 9,48). Assim como o sal conserva as coisas, As chamas infernais, enquanto afligem os condenados, exerce a função de sal, conservando-lhes a vida. Diz São Bernardo: «O fogo ali consome de modo a conservar sempre».

Que loucura seria a de alguém que, para ter um dia de divertimento, quisesse condenar-se a ficar encerrado numa cova por vinte anos ou trinta. Se a duração do inferno fosse de cem anos — que digo cem? —, mesmo que durasse apenas dois ou três, ainda seria grande loucura condenar-se a dois ou três anos de fogo por um instante de prazer vil. Mas não se trata de trinta, cem, mil ou cem mil anos: trata-se da eternidade, de sofrer para sempre os mesmos tormentos, que nunca terminarão nem serão aliviados um pouco sequer. Os santos tiveram, pois, razão de chorar e tremer enquanto viviam e ainda estavam em perigo de se condenar. O bem-aventurado Isaías, mesmo estando no deserto entre jejuns e penitências, chorava dizendo: «Ai de mim, miserável, que ainda não estou livre do fogo do inferno!»

AFETOS E ORAÇÕES

Ah, meu Deus, se me tivésseis enviado ao inferno, como tantas vezes mereci, e depois dali me retirásseis por vossa misericórdia, quanto vos deveria! Que vida santa teria começado depois! Agora, porém, com misericórdia ainda maior, preservastes-me de ali cair: Que hei de fazer? Voltarei a cometer ofensas contra vós e a despertar vossa indignação, para que me mandeis arder naquele cárcere dos rebeldes contra vós, onde tantos já ardem por menos pecados que os meus? Ah, meu Redentor, assim procedi no passado: em vez de empregar o tempo que me concedíeis para chorar os pecados, usei-o para vos irritar ainda mais. Agradeço à vossa bondade infinita, que tanto me suportou. Se não fosse infinita, como poderia suportar-me? Agradeço-vos, portanto, por me haverdes esperado com tamanha paciência até agora; agradeço sobretudo a luz que agora me dais, pela qual me fazeis conhecer a minha loucura e a injustiça que cometi contra vós mediante tantos ultrajes e pecados. Meu Jesus, detesto-os e arrependo-me de todo o coração: perdoai-me pela vossa Paixão e assisti-me com a vossa graça, para que já não vos ofenda. Justamente devo temer que, por outro pecado mortal, me abandoneis. Ah, meu Senhor, ponde diante dos meus olhos esse justo temor quando o demônio me tentar novamente a ofender-vos. Meu Deus, amo-vos e já não quero perder-vos; ajudai-me com a vossa graça. Ajudai-me, Virgem Santíssima; fazei que sempre recorra a vós nas tentações, para que já não perca a Deus. Maria, Maria, vós sois a minha esperança.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XXVII («Dell’eternità dell’inferno»), Punto I inteiro e «Affetti e preghiere», pp. 260–262 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.