Da mortificação interior
GL 5,24
«E os que são de Cristo, crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências.»
SUMÁRIO
A autêntica mortificação interior consiste em domar as paixões desordenadas sob o jugo da reta razão e da graça divina.
Ponto I
As inclinações e paixões de nossa natureza, consideradas em si mesmas, não são intrinsecamente nocivas quando guiadas e disciplinadas segundo a reta razão e a lei divina; tornam-se, ao contrário, princípios úteis ao progresso espiritual. Quando, porém, crescem desordenadas e assumem o domínio do coração, produzem danos irreparáveis na alma, ofuscando a verdade e tirando-lhe a faculdade de julgar retamente o bem e o mal. Por esse motivo rogava com fervor o Sábio divino que o Senhor não o desamparasse às paixões desgovernadas da alma. Criou Deus a criatura humana em perfeita retidão; todavia, tendo o primeiro homem dado ouvidos à serpente e rebelado-se contra o Criador, as paixões revoltaram-se contra a razão humana, estabelecendo aquela renhida peleja interior de que fala o Apóstolo: «Porque a carne deseja contra o espírito: E o espírito contra a carne: Porque estas coisas são contrárias entre si: Para que não façais tôdas aquelas coisas que quereis.» (Gl 5,17). Não obstante tão grave fraqueza, podemos sempre resistir mediante o auxílio soberano da divina graça: no íntimo da alma constituiu o Senhor um reino interior onde a vontade humana deve governar como soberana sobre os sentidos do corpo.
Ponto II
Nisso consiste precisamente a autêntica mortificação interior: em refrear sabiamente os impulsos da sensibilidade, sabendo que disso depende a preservação da graça divina. A saúde do corpo requer o equilíbrio de seus humores; da mesma sorte a vida da alma exige o prudente governo dos afetos espirituais. Quem cede servilmente aos caprichos da carne desce ao nível dos seres irracionais, guiando-se não pela luz sobrenatural da fé, mas pelo apetite cego. Duas cidades, no dizer de Santo Agostinho, edificam-se no coração humano: o amor de Deus até ao desapego de si mesmo, ou o amor próprio até ao desprezo dos mandamentos celestiais. O soberano remédio para vencer as más inclinações antes que criem raízes profundas é recorrer pontualmente à oração nas horas de combate. Quando a tentação se torna mais renhida, não convém disputar longamente com os raciocínios da mente, pois a paixão tudo perturba; impõe-se antes invocar prontamente o santíssimo nome de Jesus e de Maria, rogando-lhes com lágrimas que venham em nosso socorro.
AFETOS E ORAÇÕES
Senhor meu Deus, Salvador nosso, livrai-me do império perverso de qualquer afeto desordenado que me queira afastar de vossa celestial amizade. Não permitais que eu me torne escravo das paixões da carne, mas reinai soberanamente em todas as faculdades de minha alma. Arrependo-me de haver seguido no passado os impulsos do amor próprio em prejuízo de vossa santa lei. Livrai-me, Senhor, e não consintais que jamais me separe de vós. Ó Maria, Santa Mãe de Deus, sob a vossa maternal proteção nos acolhemos; alcançai-me o triunfo sobre as inclinações mundanas e a graça de não amar senão o Bem eterno.

