Felicidade da alma que permanece fiel a Deus na adversidade
ECLO 1,29
«O homem paciente sofrerá até o tempo destinado, e depois tornar-se-lhe-á a dar a alegria.»
SUMÁRIO
As adversidades provam a fidelidade e preparam a alegria eterna. O amor de Deus e a humildade sustentam a alma no combate, libertando-a da busca do próprio gosto.
Ponto I
A fidelidade dos soldados é provada nos combates, não no descanso. Para nós, esta terra constitui um campo de combate, onde cada pessoa é posta para combater e vencer, a fim de se salvar; se não vence, perde-se para sempre. Por isso dizia o santo Jó: «Crês porventura que morto um homem tornará a viver? Todos os dias, que passo agora nesta guerra, estou esperando até que chegue a minha imutação,» (Jó 14,14). Jó sofria ao combater tantos inimigos, mas consolava-se com a esperança de que, vencendo e ressuscitando depois da morte, mudaria de estado. Dessa mudança já falava São Paulo, alegrando-se e dizendo: «Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Porque uma trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis: E nós outros seremos mudados.» (1 Cor 15,52).
No céu muda-se de estado: ali já não é lugar de trabalho, mas de repouso; não de temor, mas de segurança; não de tristeza e tédio, mas de júbilo eterno e alegria. Na esperança desse gozo, animemo-nos, portanto, a combater até a morte e nunca nos demos por vencidos aos nossos inimigos, até que venha a nossa mudança, até que chegue o fim do combate e a posse da eternidade bem-aventurada. «O homem paciente sofrerá até o tempo destinado, e depois tornar-se-lhe-á a dar a alegria.» (Eclo 1,29). Feliz quem sofre por Deus nesta vida! Sofre por algum tempo, mas a sua alegria será eterna na pátria bem-aventurada. Acabarão, pois, as perseguições, as tentações, as doenças, os incômodos e todas as misérias desta vida; Deus nos dará uma vida inteiramente feliz, que já não terá fim.
Agora é tempo de podar a vinha e tirar tudo o que impede nosso caminho para a terra prometida do céu: «Apareceram as flores na nossa terra, chegou o tempo da poda: Ouviu-se na nossa terra a voz da rola:» (Ct 2,12). O corte causa dor; por isso é preciso ter paciência: depois virá a alegria. Conforme o que tivermos sofrido, assim nos serão restituídas consolações. Deus é fiel: a quem sofre aqui por seu amor, com resignação, promete ser ele próprio a recompensa, imensamente superior a todos os nossos padecimentos: «Passado isto, falou o Senhor a Abrão numa visão, e lhe disse: Não temas, Abrão; eu sou teu protetor, e a tua paga será infinitamente grande.» (Gn 15,1). Entretanto, antes de recebermos a coroa da vida eterna, o Senhor quer que sejamos provados pelas tentações: «Bem-aventurado o homem que sofre com paciência a tentação: Porque depois que ele tiver sido pro-» (Tg 1,12).
Feliz, pois, quem é fiel a Deus ao sofrer adversidades. Algumas pessoas creem ser amadas por Deus quando todos os seus negócios temporais prosperam e não têm trabalhos; enganam-se, porque Deus prova a paciência e a fidelidade de seus servos pelas adversidades, e não pelas prosperidades, para depois lhes dar aquela coroa que não apodrece como todas as coroas da terra: será coroa de glória eterna, conforme escreve São Pedro: «E quando aparecer o Príncipe dos pastores, recebereis a coroa de glória, que nunca se poderá murchar.» (1 Pd 5,4). A quem está prometida essa coroa? São Tiago diz: «Que Deus prometeu aos que o amam». Deus a prometeu e tornou a prometer a quem o ama, pois o amor divino nos fará combater com fortaleza e alcançar a vitória.
Ao amor de Deus é preciso unir a humildade. Diz o Eclesiástico: «Porque no fogo se prova o ouro e a prata, e os homens que Deus quer receber na fornalha da humilhação.» (Eclo 2,5). Nas humilhações descobrem-se os santos; nelas se prova se são ouro ou chumbo. Alguém é considerado santo, mas, recebendo uma afronta, perturba-se inteiramente, queixa-se a todos e diz que fará arrepender-se quem a cometeu. Que sinal é esse? Sinal de que é chumbo. Diz o Senhor: «Aceita de boamente tudo o que te suceder: E tem sofrimento na tua dor, e ao tempo da humilhação tem paciência:» (Eclo 2,4). A soberba considera grande injustiça qualquer humilhação recebida, e por isso não consegue suportá-la; a humildade, ao contrário, julgando merecer qualquer mau trato, tudo sofre com paciência. Quem cometeu um pecado mortal lance um olhar ao inferno que mereceu: assim suportará com paciência todo desprezo e toda dor.
Amemos, pois, a Deus, sejamos humildes e façamos tudo para agradar somente a Deus, sem buscar o nosso gosto. Maldito amor-próprio, que se põe à frente em cada obra! Até nos exercícios espirituais, nas penitências, na oração e nas demais obras piedosas procura seu interesse. Poucas são as almas espirituais que não caem nesse defeito. «Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra.» (Pr 31,10). Onde se encontra uma alma tão forte que, despojada de toda paixão e de todo interesse próprio, continue amando Jesus Cristo em meio aos desprezos, dores, desolações de espírito e tédios da vida? Salomão diz que essas são joias de grande preço: vêm dos últimos confins do mundo e, por isso, são raríssimas.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Jesus crucificado, sou uma daquelas pessoas que até nas próprias devoções procuraram o próprio gosto e as próprias satisfações, inteiramente diferente de vós: por amor de mim, tivestes uma vida de tribulações e despojada de qualquer alívio. Dai-me vosso auxílio: quero, de agora em diante, buscar unicamente agradar-vos e glorificar-vos. Desejo amar-vos sem interesse; mas sou fraco, vós deveis dar-me a força de o executar. Eis-me: sou vosso, disponde de mim como vos agradar. Fazei que eu vos ame, e nada mais vos peço. Maria, minha Mãe, obtende-me pela vossa intercessão fidelidade a Deus.

