Não se perdoa a todos igual número de pecados
SB 11,21
«Mas ainda sem estas coisas podiam com um só assôpro ser mortos, depois de terem padecido a perseguição pelas suas mesmas ações, e se acharem espalhados pelo espírito da tua virtude: Mas todas as coisas dispuseste com medida, e conta, e pêso.»
SUMÁRIO
A misericórdia divina não autoriza a obstinação: os juízos de Deus são insondáveis, e a oração humilde deve acompanhar a resolução de abandonar o pecado.
Ponto I
Diz aquele pecador: «Mas Deus é misericordioso». Respondo: e quem o nega? A misericórdia de Deus é infinita; contudo, apesar dessa misericórdia, quantos se condenam todos os dias! «O Espírito do Senhor repousou sobre mim, porque o Senhor me encheu da sua unção: Ele me enviou para evangelizar aos mansos, para curar os contritos do coração, e pregar remissão aos cativos e soltura aos encarcerados:» (Is 61,1). Deus cura quem tem boa vontade. Perdoa os pecados, mas não pode perdoar a vontade de continuar pecando. A pessoa replicará: «Mas sou jovem». Sois jovem? Deus, porém, não conta os anos, conta os pecados. Essa medida de pecados não é a mesma para todos: a alguém Deus perdoa cem pecados, a outra pessoa mil, e outra será lançada no inferno ao segundo pecado. Quantos o Senhor ali enviou por um primeiro pecado! São Gregório conta que uma criança de cinco anos, ao proferir uma blasfêmia, foi enviada ao inferno. A Santíssima Virgem revelou à serva de Deus Benedita de Florença que uma menina de doze anos fora condenada por seu primeiro pecado. Outra criança de oito anos também morreu e se condenou por um primeiro pecado. No Evangelho de São Mateus, capítulo 21, diz-se que o Senhor, encontrando pela primeira vez uma figueira sem fruto, logo a amaldiçoou: «Nunca mais nasça fruto de ti»; e ela secou.
Noutra ocasião disse: «Isto diz o Senhor: Depois das maldades que o povo de Damasco cometeu três e quatro vezes, eu não o converterei: Pois que estes homens fizeram passar carros armados de ferro por cima dos habitantes de Galaad.» (Am 1,3). Haverá pessoa tão temerária que queira exigir de Deus a razão pela qual deseja perdoar três pecados a alguém, mas não quatro? Aqui devemos adorar os divinos juízos, repetindo as palavras do Apóstolo: «Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!» (Rm 11,33). Santo Agostinho diz: «Ele sabe a quem perdoa e a quem não perdoa. Aos que recebem misericórdia, ela é dada gratuitamente; aos que não a recebem, não é dada por justiça» (De correptione, cap. 5).
A obstinação replicará: «Mas tantas vezes ofendi a Deus, e Deus me perdoou; espero, portanto, que também me perdoe este outro pecado». Eu, porém, pergunto: porque Deus ainda não vos castigou, haverá de ser sempre assim? A medida se completará e virá o castigo. Sansão, continuando a manter relações com Dalila, ainda esperava escapar das mãos dos filisteus, como fizera antes: «E disse-lhe: Sansão, eis-aí os filisteus sobre ti. Espertando ele do sono, djsse em seu coração: Sairei, como antes fiz, e me desembaraçarei deles, porque não sabia que o Senhor se tinha retirado dele.» (Jz 16,20). Naquela última vez, porém, foi preso e perdeu a vida. «Não digas: Eu pequei, e que mal me veio daí?» Não digais, ensina o Senhor: cometi tantos pecados e Deus nunca me castigou. «Não digas: Eu pequei, e que mal me veio daí? Porque o Altíssimo ainda que sofrido é justiceiro.» (Eclo 5,4). Isto significa que chegará uma ocasião em que tudo será pago. Quanto maior tiver sido a misericórdia, mais rigoroso será o castigo.
Diz o Crisóstomo que mais se deve temer quando Deus suporta a obstinação do que quando a pune imediatamente: «Há mais que temer quando tolera do que quando castiga depressa». Pois, como escreve São Gregório, os que Deus espera com maior paciência são depois punidos mais rigorosamente, se permanecem ingratos: «Aos que espera por mais tempo, condena mais severamente». Muitas vezes, acrescenta o santo, os que foram suportados durante longo tempo morrem de repente, sem terem tempo de se converter: «Muitas vezes aqueles que foram tolerados por muito tempo são arrebatados por morte súbita, sem que lhes seja permitido chorar antes de morrer».
Sobretudo, quanto maior tiver sido a luz que Deus vos deu, maior será a vossa cegueira e obstinação no pecado. Disse São Pedro: «Porque melhor lhes era não ter conhecido o caminho da justiça, do que depois de o ter conhecido tornar para trás, deixando aquele mandamento santo, que lhes fôra dado.» (2 Pd 2,21). São Paulo disse ser impossível — falando moralmente — que uma alma iluminada, recaindo no pecado, se converta: «Porque é impossivel que os que foram uma vez iluminados, que tomaram já o gôsto ao dom celestial e que foram feitos participantes do Espírito Santo: Que gostaram igualmente a boa palavra de Deus, e as virtudes do século vindouro. E depois disto cairam; é impossível, digo, que eles tornem a ser renovados pela penitência, pois crucificam de novo ao Filho de Deus em si mesmos, e o expõem ao ludibrio.» (Hb 6,4–6). Terrível é o que o Senhor diz aos que não ouvem os seus chamados: «Porque eu vos chamei, e vós não quisestes ouvir-me: Estendi a minha mão, e não houve quem olhasse para mim. Pois eu me rirei também na vossa morte, e zombarei de vós, quando vos suceder o que temíeis.» (Pr 1,24.26). Considerem-se aquelas duas palavras: «Também eu». Significam que, assim como aquele pecador escarneceu de Deus mediante confissões e promessas seguidas de novas traições, assim o Senhor zombará dele na morte. Além disso, diz o Sábio: «O imprudente, que repete a sua loucura, é como o cão que torna outra vez ao que tinha vomitado.» (Pr 26,11). Dionísio Cartusiano explica que, assim como é abominável e repugnante um cão alimentar-se daquilo que vomitou, assim se torna odioso a Deus quem volta aos pecados que detestou na confissão: «Assim como retomar o que foi rejeitado pelo vômito é muito abominável e vergonhoso, assim também repetir pecados apagados».
AFETOS E ORAÇÕES
Eis-me, meu Deus, aos vossos pés. Sou aquele cão repugnante que tantas vezes voltou a alimentar-se dos frutos proibidos que antes detestara. Não mereço compaixão, meu Redentor; mas o vosso sangue, derramado por mim, dá-me coragem e me obriga a esperá-la. Quantas vezes vos ofendi, e vós me perdoastes! Prometi que não vos ofenderia mais, depois voltei ao vômito, e vós voltastes a perdoar-me. Que espero? Que me mandeis efetivamente para o inferno? Ou que me abandoneis nas mãos do meu pecado, o que seria castigo maior do que o inferno? Não, meu Deus, quero emendar-me. Quero ser fiel a vós; por isso, deposito em vós a confiança inteira; quando vier a tentação, quero recorrer imediatamente e sempre a vós. No passado confiei nas minhas promessas e resoluções, e descuidei de recomendar-me a vós nas tentações: essa foi a minha ruína. Não; de agora em diante vós sereis a minha esperança e a minha fortaleza, e assim poderei tudo: «Tudo posso naquele que me conforta.» (Fl 4,13). Concedei-me, pois, pelos vossos méritos, meu Jesus, a graça de recorrer sempre a vós e de pedir o vosso auxílio nas necessidades. Amo-vos, sumo bem, amável acima de todos os bens, e quero amar somente a vós; mas vós deveis ajudar-me. E vós também deveis socorrer-me com a vossa intercessão, minha Mãe Maria: guardai-me sob o vosso manto e fazei que sempre vos invoque quando vier a tentação. O vosso nome será a minha defesa.

