Jesus, modelo de obediência
FL 2,8
«Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz.»
SUMÁRIO
O Verbo se faz servo e obedece por nossa salvação; seu amor nos liberta da escravidão do pecado.
Ponto I
O Verbo eterno desce à terra para salvar o homem. De onde desce? «a sua saída é desde uma extremidade dêle: E não há quem se esconda do seu calor.» (Sl 18,7). Desce do seio de seu Pai divino, onde sua geração eterna se dá entre os esplendores dos santos. Aonde, porém, chega? Chega ao seio virginal de uma filha de Adão. Diante do seio de Deus, esse seio é apenas horror. Por isso canta a Igreja: «Não tivestes horror ao seio da Virgem.» Sim, porque, no seio do Pai, o Verbo é Deus como o Pai: imenso, onipotente, felicíssimo, Senhor supremo e em tudo igual ao Pai. No seio de Maria, porém, segundo a humanidade, é criatura, pequeno, fraco, atribulado, servo e menor que o Pai: «tomando a forma de servo».
Conta-se como grande prodígio de humildade que Santo Aleixo, filho de um senhor romano, quis viver como servo na casa paterna. Mas que comparação há entre a humildade desse santo e a de Jesus Cristo? Entre filho e servo do pai de Aleixo havia uma diferença de condição; entre Deus e servo de Deus, a diferença é infinita. Além disso, tendo-se feito servo do Pai, o Filho de Deus, para obedecer-lhe, fez-se também servo de suas criaturas, Maria e José: «E desceu com êles, e veio a Nazaré, e obedecia-lhes. E sua mãe conservava tôdas estas palavras no seu coração.» (Lc 2,51). Fez-se ainda servo de Pilatos, que o condenou à morte, e ele a aceitou obedientemente; servo dos algozes, que quiseram açoitá-lo, coroá-lo de espinhos e crucificá-lo: a todos obedeceu com humildade, entregando-se às suas mãos.
Ó Deus, recusaremos depois sujeitar-nos ao serviço deste Salvador tão amável, que, para nos salvar, aceitou tantas sujeições dolorosas e humilhantes? Para evitar servir a Senhor tão grande e amoroso, consentiremos em nos fazer escravos do demônio? Este não ama seus servos: odeia-os e os trata como tirano, tornando-os infelizes nesta vida e na outra. Se cometemos tão grande loucura, por que não saímos depressa de tamanha desgraça? Já que a graça de Jesus Cristo nos libertou da escravidão infernal, com amor abracemos e estreitemos prontamente as correntes suaves pelas quais nos tornamos servos que amam Jesus Cristo. Elas nos alcançarão a coroa eterna, no reino dos bem-aventurados do paraíso.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Jesus amado, sois o monarca da terra e do céu; por meu amor, porém, fizestes-vos servo até dos carrascos: eles dilaceraram vossa carne, perfuraram vossa cabeça e por fim vos deixaram cravado na cruz, onde morrestes de dor. Como Senhor e Deus vos adoro; envergonho-me de me apresentar a vós ao lembrar quantas vezes, por alguma pobre satisfação, rompi vossos santos laços e disse à vossa face que não queria servir-vos. Justamente me censurais: «Rompeste os meus vínculos» e «Não servirei» (Jr 2,20). Mas vossos méritos e vossa bondade me animam a esperar perdão, meu Salvador; não desprezais um coração arrependido e humilde: «Sacrifício para Deus é o espírito atribulado: Ao coração contrito, e humilhado não o desprezarás, ó Deus.» (Sl 50,19). Meu Jesus, confesso que vos desagradei injustamente; confesso que mereço mil infernos pelas ofensas que vos fiz. Castigai-me como quiserdes, mas conservai-me vossa graça e vosso amor. Mais que qualquer mal, deploro ter-vos desprezado. Amo-vos com toda a alma. De hoje em diante quero servir somente a vós e somente a vós amar. Por vossos méritos, pelas correntes de vosso amor santo prendei-me a vós; não deixeis que eu me veja livre delas. Ó meu libertador, acima de todas as coisas vos amo; prefiro servir-vos a possuir o mundo inteiro. De que aproveita todo o mundo a quem vive sem vossa graça? Jesus dulcíssimo, não permitais que de vós me separe, não permitais que de vós me separe. Peço esta graça e quero continuar a pedi-la. Concedei-me hoje a graça de repetir sempre, durante minha vida: Meu Jesus, não permitais que me aparte novamente de vosso amor. Maria, minha Mãe, também a vós peço essa graça: ajudai-me, por vossa intercessão, a jamais me separar de meu Deus.

