O Filho de Deus tomou sobre si as nossas iniquidades
IS 53,6
«Todos nós andamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou por seu caminho: E o Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós.»
SUMÁRIO
O Filho inocente assume as penas de nossos pecados para obter-nos o perdão e a salvação.
Ponto I
Considera a humilde condição à qual o Filho de Deus quis descer: não tomou somente a forma de servo, mas a de servo pecador, «em semelhança da carne de pecado». São Bernardo escreveu: «Assumindo não apenas a forma de servo para obedecer, mas a de mau servo para ser açoitado.» O Senhor de todos quis assumir a condição de servo para sujeitar-se a outros; e o Santo dos santos quis tomar ainda a aparência de um servo criminoso, para receber castigo como malfeitor. Vestiu, por isso, a mesma carne de Adão que havia sido contaminada pelo pecado. Embora não contraísse a mancha do pecado, carregou todas as misérias que a natureza humana havia recebido como sua pena.
Para nos obter a salvação, nosso Redentor se ofereceu voluntariamente ao Pai, a fim de satisfazer por todas as nossas culpas: «Foi oferecido, porque ele mesmo quis, e não abriu a sua bôca: Ele será levado como uma ovelha ao matadouro, e como um cordeiro diante do que o tosquia emudecerá, e não abrirá a sua bôca.» (Is 53,7). O Pai colocou sobre ele todos os nossos crimes: «Todos nós andamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou por seu caminho: E o Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós.» (Is 53,6). Eis o Verbo divino, inocente, puríssimo e santo, desde menino carregado de todas as blasfêmias, impurezas, sacrilegios e delitos humanos. Por amor de nós, fez-se objeto das maldições divinas em razão dos pecados pelos quais se obrigara a satisfazer à justiça de Deus. Foram, portanto, tantas as maldições assumidas por Jesus Cristo quantos foram e serão os pecados mortais de todas as pessoas. Assim se apresentou ao Pai quando veio ao mundo, desde o princípio de sua vida: como réu e devedor de todos os nossos delitos. Como tal, o Pai o condenou a morrer justiçado e maldito numa cruz: «Porquanto o que era impossível à lei, em razão de que se achava debilitada pela carne: Enviando Deus a seu Filho em semelhança de carne de pecado, ainda do pecado condenou ao pecado na carne,» (Rm 8,3).
Ó Deus, se o Pai eterno fosse capaz de sofrer, que dor experimentaria ao ver-se obrigado a tratar como réu, e como o pior dos réus, seu Filho inocente, seu amado, tão digno de todo seu amor! «Eis aqui o homem», disse Pilatos, mostrando Jesus açoitado aos judeus para despertar compaixão por aquele inocente tão maltratado. «Eis aqui o homem», parece dizer-nos o Pai eterno ao mostrá-lo na estrebaria de Belém. Esse pobre menino que vedes numa manjedoura de animais, estendido sobre a palha, é meu Filho amado: veio carregar vossos pecados e vossas penas. Amai-o, pois; muito merece vosso amor, e muito fez para vos mover a amá-lo.
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu Senhor inocente, espelho sem mancha, amor do Pai eterno, os castigos e as maldições não vos cabiam: cabiam a mim, pecador. Mas quisestes mostrar ao mundo esse excesso de amor, sacrificando vossa vida para nos obter perdão e salvação, pagando com vossas penas aquelas que merecíamos. Todas as criaturas louvem e bendigam vossa misericórdia e bondade sem limites. Agradeço-vos por todas as pessoas, especialmente por mim: havendo-vos ofendido mais que outras, os sofrimentos que padecestes foram mais por mim que por elas. Mil vezes amaldiçoo meus prazeres indignos, que vos custaram tanta dor. Contudo, já que pagastes o preço de meu resgate, fazei que o sangue derramado por amor de mim não se perca para minha alma. Meu amor, sinto pesar por vos ter desprezado, mas peço-vos pesar ainda maior. Dai-me a conhecer o mal que pratiquei ao ofender-vos, meu Deus e Redentor, que tanto padecestes para me obrigar a amar-vos. Amo-vos, infinita bondade, mas quero amar-vos mais; quisera amar-vos quanto mereceis. Fazei-vos amar, meu Jesus, por mim e por todos: bem o mereceis. Iluminai os pecadores que não querem conhecer-vos ou amar-vos; fazei-lhes compreender o que fizestes por amor deles e quanto desejais sua salvação. Maria Santíssima, a Jesus recomendai todos os pecadores e também minha alma. Alcançai-nos luz e graça para amar vosso Filho, que tanto nos amou.

