Para se santificar, a alma deve entregar-se inteiramente a Deus
CT 2,4
«Ele me fez entrar na adega, onde mete o seu vinho, ordenou em mim a caridade.»
SUMÁRIO
O amor de Deus liberta o coração dos apegos; entreguemos tudo para possuir o sumo bem.
Ponto I
São Filipe Néri dizia que todo amor posto nas criaturas é retirado de Deus. Por isso nosso Salvador, como escreve São Jerônimo, tem ciúme de nossos corações: «Jesus é ciumento.» Porque nos ama muito, quer reinar sozinho em nosso coração; não quer companheiros que lhe roubem uma parte daquele amor que deseja todo para si. Desagrada-lhe, pois, ver-nos presos a algum afeto que não se dirige a ele. Acaso nosso Salvador exige demais, depois de nos dar todo o sangue e a vida, morrendo na cruz? Não merece que o amemos de todo o coração e sem reserva?
São João da Cruz diz que qualquer apego às criaturas nos impede de pertencer inteiramente a Deus: «Quem me dará asas como de pomba, e voarei, e descansarei?» (Sl 54,7). Algumas almas são chamadas por Deus à santidade; mas, porque procedem com reserva, não entregam todo o amor a Deus e conservam algum afeto às coisas terrenas, não se santificam nem jamais o conseguirão assim. Gostariam de voar; retidas, porém, por algum apego, não voam e ficam sempre no chão. É necessário desprender-se de tudo. Cada fio, grande ou pequeno, diz o mesmo São João, impede a alma de voar para Deus.
Santa Gertrudes pediu um dia ao Senhor que lhe fizesse entender o que queria dela. O Senhor respondeu: «Nada quero de ti além de um coração vazio.» Era isso que Davi pedia a Deus: «Cria em mim, ó Deus, um coração puro» (Sl 50,12). Meu Deus, dai-me um coração limpo, isto é, vazio e despojado de todo afeto mundano. «Tudo pelo todo», escreveu Tomás de Kempis. É preciso dar tudo para adquirir o tudo. Para possuir Deus inteiramente, deixemos tudo o que seja alheio a ele. Desse modo a alma poderá dizer ao Senhor: meu Jesus, deixei tudo por vós; entregai-vos agora inteiramente a mim.
Para chegar a isso, peçamos continuamente ao Senhor a plenitude de sua santa caridade. Esse amor é o fogo poderoso que consome em nossos corações todos os afetos que não são para Deus. São Francisco de Sales dizia que, quando uma casa se incendeia, todos os objetos são lançados pela janela. Queria dizer que, quando o coração se inflama e o amor divino toma posse dele, já não precisa de sermões nem de diretores espirituais para desprender-se do mundo: o próprio amor de Deus queima e despoja o coração de todo afeto impuro.
A santa caridade é representada no Cântico dos Cânticos pelo símbolo da adega: «Ele me fez entrar na adega, onde mete o seu vinho, ordenou em mim a caridade» (Ct 2,4). Nessa adega bendita, as almas esposas de Jesus Cristo, inebriadas pelo vinho do santo amor, perdem o gosto pelas coisas do mundo. Olham somente para Deus; em tudo procuram Deus; falam apenas de Deus e não desejam ouvir falar senão dele. Quando ouvem outras pessoas falar de riquezas, dignidades e divertimentos, voltam-se para Deus e dizem com um suspiro ardente: «Meu Deus e meu tudo! Meu Deus, que mundo, que prazeres, que honras! Sois todo o meu bem e todo o meu contentamento.» Santa Teresa escreve, falando da oração de união, que essa união consiste em morrer a todos os objetos mundanos para possuir somente Deus.
São três os meios principais para uma alma se entregar inteiramente a Deus. Primeiro, evitar até os menores defeitos, vencendo toda pequena vontade desordenada: abster-se da curiosidade de ver e ouvir, dos pequenos prazeres sensíveis, da palavra espirituosa mas inútil e de coisas semelhantes. Segundo, entre as coisas boas escolher sempre a melhor, que mais agrada a Deus. Terceiro, receber das mãos divinas, com paz e gratidão, as coisas desagradáveis ao amor-próprio.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Jesus, meu amor, meu tudo, como posso ver-vos morto num patíbulo infame, desprezado por todos e consumido de dores, e procurar prazeres e glórias terrenas? Quero pertencer-vos sem reserva. Esquecei os desgostos que vos dei e recebei-me. Mostrai-me aquilo de que devo desprender-me e o que devo fazer para vos contentar: quero cumprir tudo. Dai-me força para o realizar e para vos ser fiel. Amado Redentor, desejais que eu me entregue inteiramente a vós para me unir todo ao vosso Coração. Eis-me aqui: neste dia me entrego a vós, por inteiro, sem reserva alguma, inteiramente. Espero de vós a graça de jamais deixar a fidelidade, até morrer. Maria, que sois Mãe de Deus e minha também, alcançai-me a santa perseverança.

