Maria Santíssima, modelo de pobreza
MT 19, 21
«Jesus lhe respondeu: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres... Depois vem, e segue-me»
SUMÁRIO
O divino Redentor, para nos ensinar o desprezo dos haveres transitórios, escolheu nascer e viver na pobreza nesta terra. A Virgem Maria, sua discípula perfeitíssima, imitou com fidelidade heroica esse divino exemplo: tendo herdado bens de seus pais, despojou-se de tudo para doar aos necessitados e ao Templo, contentando-se com a labuta diária e fazendo da pobreza evangélica o seu contentamento em Deus.
Ponto IO despojamento heroico da Mãe de Deus
Nosso amoroso Salvador, para nos instruir no desprezo das coisas terrenas, quis viver pobre sobre esta terra: Sendo rico, fez-Se pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza vós vos enriquecêsseis, afirma o Apóstolo (2 Coríntios 8, 9). E o mesmo Cristo exortava àquele que pretendesse seguir os seus passos: Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis e dá-o aos pobres... e depois vem e segue-Me (Mateus 19, 21). Eis que a sua mais perfeita discípula, Maria Santíssima, seguiu com fidelidade ímpar esse admirável exemplo.
Demonstra o Padre Canísio que a Bem-Aventurada Virgem, com a herança legítima deixada por seus virtuosos pais Joaquim e Ana, poderia ter vivido com grande desafogo e comodidade material; contudo, preferiu permanecer pobre, reservando para si apenas uma diminuta parcela e distribuindo todo o restante em esmolas ao Templo do Senhor e aos pobres mais indigentes. Afirmam diversos teólogos que Maria fez desde cedo voto de pobreza; e revelou Ela própria a Santa Brígida: Desde o início consagrei no meu íntimo a resolução de nunca possuir coisa alguma nesta terra (no Livro primeiro de suas Revelações, capítulo dez).
As oferendas preciosas trazidas pelos Santos Reis Magos ao Menino Jesus decerto foram de grandioso valor; todavia, a divina Senhora distribuiu-as inteiramente aos necessitados pelas mãos de São José, como atesta São Bernardo: O ouro que Lhe foi ofertado pelos Magos em quantidade copiosa, como convinha à majestade régia, não o guardou para Si, mas repartiu-o entre os pobres por intermédio de José. Que a Mãe Santíssima logo se despojou dessas dádivas comprova-se pelo fato de que, ao subir ao Templo para a sua Purificação, não ofereceu o cordeiro prescrito para as famílias de recursos abastados (Levítico 12, 6), mas duas rolas ou dois pombinhos, que era a oferenda humilde dos indigentes (Lucas 2, 24). Declarou Maria a Santa Brígida: Tudo quanto pude adquirir dei-o aos necessitados, nada guardando para mim exceto um alimento sóbrio e vestes singelas.
Ponto IIA virtude da santa pobreza
Por amor à sublime pobreza evangélica, não desdenhou a Rainha dos Anjos desposar um humilde artífice como São José, sustentando-se a partir de então pelo trabalho cotidiano de suas mãos, fiando e costurando com paciência admirável, como recorda São Boaventura. Revelou o anjo a Santa Brígida a respeito de Maria: As riquezas mundanas eram tidas por Ela como pó sem valor. Em suma, a Virgem Imaculada pobre viveu e pobre expirou: sabe-se que na hora do seu trânsito nada mais deixou além de duas túnicas modestas a duas piedosas mulheres que a haviam assistido com caridade filial, como referem Metafrastes e Nicéforo.
Quem ama com apego as riquezas nunca alcançará a santidade, repetia com insistência São Filipe Néri. E Santa Teresa asseverava com acerto que quem corre atrás de bens perecíveis arrisca perder a si mesmo para sempre. Pelo contrário, acrescentava a mesma santa doutora que a virtude da santa pobreza é um bem tão excelente que encerra em si todos os demais bens celestes. Disse bem a virtude da pobreza, a qual, como salienta São Bernardo, não consiste meramente em carecer de haveres, mas em amar o desapego por amor de Deus: Não é a indigência, mas o amor voluntário à pobreza que constitui a virtude (Non paupertas, sed amor paupertatis virtus est).
Por isso proclamou Nosso Senhor Jesus Cristo: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mateus 5, 3). Bem-aventurados, sim, porque aqueles que nada anseiam fora de Deus encontram n'Ele a plenitude de todas as delícias, e descobrem no desapego o seu antegozo do paraíso aqui na terra, como experimentava São Francisco ao repetir em santo enlevo: Meu Deus e meu Tudo! Amemos, portanto, aquele Bem supremo no qual todos os bens se acham congregados, como exortava Santo Agostinho: Ama unum bonum in quo sunt omnia bona. E peçamos ao Redentor com a oração de Santo Inácio: Dai-me somente o vosso divino amor juntamente com a vossa graça, e sou assaz rico; nada mais Vos peço. E quando a carência nos afligir, consolemo-nos ao considerar que Jesus e sua bendita Mãe foram igualmente desprovidos de haveres neste mundo.
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, minha Mãe amabilíssima, com quanta razão dissestes que em Deus repousava a vossa alegria perene: O meu espírito exultou em Deus meu Salvador! Pois nesta peregrinação terrena jamais ambicionastes nem amastes outro tesouro senão o vosso Criador. Atraí-me após Vós: Trahe me post te! Senhora minha, desapegai o meu coração dos atrativos passageiros do mundo e arrastai-me no vosso seguimento para amar unicamente Àquele que é o único digno de ser amado sobre todas as coisas.
E Vós, ó meu dulcíssimo Jesus, vinde consumir em minha alma pelo vosso amor todo afeto que não seja voltado para o vosso agrado. Fazei com que, imitando a virtude de vossa Mãe amantíssima, eu morra para todas as ambições terrenas e para a minha própria vontade desregrada, a fim de não viver senão para amar a vossa bondade infinita e desejar a vossa graça celestial. Amém.

