Terceira dor de Maria Santíssima: a perda de Jesus no templo
LC 2,48
«Sabe que teu pai e eu te andávamos buscando cheios de aflição.»
SUMÁRIO
Entre todos os padecimentos da Virgem Mãe, o extravio de Jesus em Jerusalém durante três dias foi dos mais dilacerantes, por sofrer ela na ausência do amado Menino e temer haver cometido alguma inadvertência no seu cuidado. Consideram-se a desolação da santíssima Mãe à procura do divino tesouro, o conforto proporcionado às almas que provam aridezes espirituais e a necessidade de não buscar a Deus entre regalos mundanos, mas entre as cruzes e as virtudes.
Ponto IA perda de Jesus em Jerusalém e a desolação da Mãe santíssima
Ensina o apóstolo São Tiago que a perfeição cristã se consuma no exercício perseverante da paciência (Tg 1,4); por esse motivo, havendo o Senhor concedido Maria Santíssima por padrão eminente de virtude, aprouve-lhe cumulá-la de tribulações, a fim de que os fiéis pudessem venerar e seguir a sua constância invencível. Dentre os maiores tormentos suportados pela divina Senhora avulta a perda de seu Filho em Jerusalém. Quem nasceu cego pouco experimenta a amargura de não contemplar a claridade do dia; mas quem outrora desfrutou da faculdade da visão e das delícias da luz, quão intensamente ressente a obscuridade quando privado dela! Semelhantemente, aquelas almas empedernidas que, imersas nas atrações do mundo, quase não conheceram a intimidade de Deus, pouca mágoa manifestam quando se veem longe dele; ao passo que a alma favorecida pelo resplendor do Alto e enriquecida do doce amor do Sumo Bem, em extremo se angustia ao perceber-se desprovida de sua presença.
Avaliemos, pois, quão profunda foi a espada que transpassou o coração de Maria, habituada a viver em comunhão constante com Jesus, quando, ao termo da solenidade da Páscoa, verificou achar-se separada dele por espaço de três dias sucessivos. Narra o evangelista São Lucas que, tendo o divino Menino atingido doze anos, permaneceu na cidade santa sem que sua Mãe o advertisse, supondo-o na comitiva dos peregrinos (Lc 2,43-44). Não o encontrando entre os parentes, regressou incontinente a procurá-lo pelas praças. Qual não foi o desalento da dolorosa Virgem naqueles dias, indagando a todos com os acentos da Esposa dos Cânticos: «Vistes porventura aquele a quem ama a minha alma?» (Ct 3,3). E ao fim de incansáveis passos, sem recolher notícia alguma, repetia com maior ternura que a de Rúben: «O menino não aparece, e onde irei eu?» (Gn 37,30). Meu doce Salvador se ocultou; onde poderei viver sem o meu único penhor?
Vários santos doutores julgam que esta aflição foi a mais pungente suportada pela Virgem Mãe, porque nas outras dores mantinha consigo a companhia consoladora de Jesus, enquanto nesta padecia apartada do seu Filho sem saber onde ele parava: «A luz dos meus olhos, e essa mesma não está comigo» (Sl 37,11). Afirma Orígenes que Maria experimentou maior suplício nessa temporária perda do que qualquer mártir no momento em que a carne se desprende do espírito. Pareceram-lhe aqueles três dias três longos séculos de amargo desamparo, sem encontrar quem a aliviasse.
Ponto IIA aridez espiritual e o modo de buscar o Sumo Bem
Ademais, ao passo que nas outras dores a santa Senhora discernia perfeitamente a razão e a finalidade dos tormentos na redenção humana, neste desaparecimento ignorava o motivo pelo qual o Menino se apartara. Pensava em sua profunda humildade, pondera Lanspérgio, se porventura não se fizera indigna de custodiar tesouro tão celeste por alguma involuntária negligência. Não existe sofrimento mais agudo para uma criatura abrasada no amor divino que a suspeita de haver desagradado ao seu Criador; por isso Maria somente neste transe expressou queixa amorosa ao reencontrar Jesus no templo: «Filho, por que usaste assim conosco? Sabe que teu pai e eu te andávamos buscando cheios de aflição» (Lc 2,48).
Esta acerba provação da Mãe de Deus deve servir de refrigério e alento às pessoas justas que atravessam noites de desolação espiritual e já não sentem a doçura da presença do Senhor outrora experimentada. Lamentem embora a aridez, mas façam-no com serenidade e santa resignação, cientes de que o Salvador muitas vezes oculta a sua face aos olhos para ser procurado com redobrado ardor no coração. Contudo, quem verdadeiramente deseja reencontrar a Jesus não deve procurá-lo em meio às volúpias e deleites da terra, mas no caminho das cruzes e renúncias evangélicas.
E se tão amargamente chorou a Virgem santa o afastamento temporário de seu Filho amado, com quanta contrição não deveriam prantear os pecadores que, banindo de si a graça celestial pela culpa mortal, apartaram a alma do próprio Deus! Lamenta Santo Agostinho a inconcebível cegueira dos mundanos, os quais, se perdem um boi, um jumento ou uma ovelha do seu rebanho, desvelam-se em buscas fatigantes e não descansam enquanto não os recuperam; mas se chegam a perder o Sumo Bem por causa de suas ofensas, comem, bebem e permanecem tranquilos em sua perdição.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Virgem bendita, por qual motivo vos afligis em busca de vosso Filho divino? Não compreendeis que ele habita no mais íntimo do vosso coração e repousa entre os lírios da vossa admirável pureza? Vós mesma proclamastes: «O meu amado é para mim e eu para ele, que apascenta entre os lírios» (Ct 2,16). Vossos afetos perfeitamente humildes e sem mancha são os lírios que atraem sem cessar a permanência do celeste Esposo. Ah, Senhora incomparável, vós suspirais por Jesus, vós que nada mais amais senão a Jesus! Deixai esses suspiros para mim e para tantos culpados que, por o haverem ofendido, perderam a sua santa amizade. Se por tibieza minha o vosso dulcíssimo Filho ainda não estabeleceu pleno reinado em minha alma, concedei-me que o encontre sem tardança. Sei perfeitamente que o Senhor é propício a quantos o invocam com sincero coração. Vós sois a porta bendita pela qual os pecadores arrependidos chegam à posse do Salvador; alcançai-me a graça de jamais me apartar da sua misericórdia. Amém.

