A doçura da morte de quem vive na justiça
SB 3,1
«Mas as almas dos justos estão na mão de Deus. e não os tocará o tormento da morte.»
SUMÁRIO
A morte encerra os trabalhos de quem ama a Deus. O coração desprendido oferece os últimos sofrimentos em união com o sacrifício de Jesus e deseja o céu para amá-lo melhor.
Ponto I
A morte, considerada segundo os sentidos, assusta e faz-se temer; considerada segundo a fé, consola e faz-se desejar. Aparece terrível aos pecadores, mas mostra-se amável e preciosa aos santos: «Preciosa — diz São Bernardo — como termo dos trabalhos, consumação da vitória e porta da vida.» Termo dos trabalhos: sim, a morte põe fim às fadigas e aos sofrimentos. «O homem nascido da mulher, que vive breve tempo, é cercado de muitas misérias.» (Jó 14,1). Eis a nossa vida: é breve e inteiramente cheia de misérias, enfermidades, temores e paixões. Os mundanos que desejam longa vida, que outra coisa procuram, diz Sêneca, senão um tormento mais prolongado? «Pede-se, como vida, o prolongamento do suplício.» Que é continuar vivendo, senão continuar padecendo? Diz Santo Agostinho: «Que é viver longamente, senão ser longamente atormentado?» Sim, porque, segundo nos adverte Santo Ambrósio, a vida presente não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar e, mediante os trabalhos, merecer a vida eterna: «Esta vida foi dada ao homem para o trabalho, não para o descanso.» Por isso bem diz Tertuliano que, quando Deus abrevia a vida de alguém, abrevia-lhe o tormento: «Deus suprime um longo tormento quando concede uma vida breve.»
Assim, embora a morte tenha sido dada ao homem em pena do pecado, são tantas as misérias desta vida que ela, como diz Santo Ambrósio, parece ter-nos sido dada como alívio, não como castigo: «Para que a morte pareça remédio, e não pena.» Deus chama felizes aqueles que morrem na sua graça, porque terminam os trabalhos e vão para o repouso: «Então ouvi uma voz do céu que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos, que morrem no Senhor. De hoje em diante diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos: Porque as obras deles os seguem.» (Ap 14,13). Os tormentos que afligem os pecadores ao morrer não afligem os santos: «Mas as almas dos justos estão na mão de Deus. e não os tocará o tormento da morte.» (Sb 3,1).
Os santos não se angustiam com aquele «Parte deste mundo», que tanto assusta os mundanos. Não se afligem por deixar os bens da terra, porque mantiveram o coração desprendido deles. «Deus do meu coração, e minha porção, Deus para sempre» (Sl 72,26): assim disseram continuamente. Felizes sois, escreveu o Apóstolo aos discípulos que, por Jesus Cristo, haviam sido despojados dos seus bens: «Porque não só vos compadecestes dos encarcerados, mas levastes com contentamento que vos roubassem as vossas fazendas, conhecendo que tendes patrimônio mais excelente e durável» (Hb 10,34). Não se afligem por deixar as honras, pois antes as abominaram e consideraram, como realmente são, fumaça e vaidade; estimaram somente a honra de amar a Deus e ser amados por ele. Não se afligem por deixar os parentes, pois os amaram somente em Deus; ao morrer, deixam-nos confiados àquele Pai do céu, cujo amor por eles é ainda maior. E, esperando salvar-se, pensam que poderão ajudá-los melhor do paraíso que desta terra.
Em suma, aquilo que sempre disseram em vida — «Meu Deus e meu tudo» — repetem ao morrer com maior consolação e ternura. Quem ama a Deus ao morrer não se deixa inquietar pelas dores próprias da morte; antes se compraz nelas, pensando que a vida já termina e não lhe resta tempo para sofrer por Deus e oferecer-lhe outros sinais de amor. Por isso lhe oferece, com afeto e paz, esses últimos restos da vida; e consola-se ao unir o sacrifício da própria morte àquele que Jesus Cristo ofereceu por ele, um dia, na cruz, ao seu eterno Pai. Assim morre felizmente, dizendo: «Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei.» (Sl 4,9). Oh, que paz há em morrer abandonando-se e repousando nos braços de Jesus Cristo, que nos amou até à morte e quis ele próprio uma morte amarga para obter-nos uma morte doce e consoladora!
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Jesus, meu amado Senhor, que para tornar suave a minha morte quisestes morrer tão amargamente no Calvário, quando vos verei? A primeira vez que me for dado ver-vos, eu vos verei como meu juiz, no mesmo lugar onde expirarei. Que vos direi então? Que me direis vós? Não quero esperar até esse momento para pensar nisso; quero meditá-lo agora.
Eu vos direi assim: Meu querido Redentor, sois, pois, aquele que por mim morreu? Em outro tempo, eu vos ofendi e vivi na ingratidão, sem merecer perdão; mas depois, com o auxílio da vossa graça, voltei a mim e, no restante da minha vida, verti lágrimas pelos meus pecados e recebi o vosso perdão. Perdoai-me novamente, agora que estou aos vossos pés, e dai-me vós mesmo uma absolvição geral das minhas culpas. Eu já não merecia amar-vos, pois havia desprezado o amor que me tínheis; contudo, pela vossa misericórdia, atraístes o meu coração. Se ele não vos amou conforme o vosso merecimento, ao menos vos amou acima de tudo, renunciando a tudo para vos dar prazer.
Agora, que me dizeis? Vejo que o paraíso e a posse de vós no vosso reino são um bem demasiado grande para mim. Contudo, não tenho forças para viver longe de vós, principalmente agora que me destes a conhecer o vosso rosto belo e amável. Peço-vos, pois, o paraíso, para vos amar melhor, mais do que para gozar. Mandai-me ao purgatório pelo tempo que vos aprouver. Não quero sequer entrar naquela pátria de pureza e encontrar-me entre aquelas almas puras com tantas manchas como tenho agora. Mandai-me purificar; mas não me afasteis para sempre da vossa face. Basta que um dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para cantar eternamente as vossas misericórdias.
Por agora, meu amado juiz, levantai a mão e abençoai-me; dizei-me que vos pertenço e vós me pertenceis e pertencereis para sempre. Eu vos amarei sempre; vós me amareis sempre. Eis que agora me afasto de vós e encaminho-me ao fogo; e sigo com alegria, pois vou amar-vos, meu Redentor, meu Deus, meu tudo. Sigo, sim, contente; mas sabei que, durante o tempo em que permanecerei longe de vós, será esta a minha maior pena: estar distante de vós. Vou, Senhor, contar os momentos até me chamardes. Compadecei-vos desta alma que vos tem amor com todo o seu ser e suspira por ver-vos para vos amar melhor.
Assim espero, meu Jesus, falar-vos naquele momento. Por isso vos peço a graça de viver de modo que então possa dizer-vos o que agora meditei. Concedei-me que persevere santamente e tenha o vosso amor. E socorrei-me vós, ó Maria, Mãe de Deus: rogai a Jesus por mim.

