Primeira palavra de Jesus Cristo na cruz
LC 23,34
«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.»
SUMÁRIO
Santo Afonso contempla a infinita mansidão e a inesgotável caridade do Redentor no alto do Calvário, onde, suspenso na cruz entre os tormentos mais atrozes, rogou ao Pai celeste o perdão para os seus próprios algozes e obteve a salvação de incontáveis pecadores.
Ponto IA caridade suprema do Salvador na cruz
Ó ternura inefável do amor de Jesus Cristo para com os homens ingratos! Observa Santo Agostinho que o Redentor divino, no próprio instante em que era barbaramente ultrajado e cravado no lenho por seus algozes, suplicava o perdão em benefício deles; não fixava a sua atenção nas injúrias que recebia nem na morte que lhe infligiam, mas unicamente na caridade que o impelia a morrer pela redenção da humanidade. Pedia clemência para aqueles de quem recolhia opróbrios, porque o seu coração divinamente abrasado não considerava o fato de perecer às mãos deles, mas de dar a vida por amor deles.
E por que razão orou Jesus ao Pai implorando-lhe o indulto, podendo Ele mesmo perdoar soberanamente todas as ofensas? Responde São Bernardo que assim procedeu, não por falta de potestade própria para remitir as culpas, mas para ensinar-nos com o seu sublime exemplo a orar com sinceridade pelos nossos perseguidores. Como pondera Arnaldo de Chartres, enquanto os verdugos se empenhavam em acumular motivos para a sua ruína eterna, o Salvador esforçava-se por alcança-lhes a reconciliação; e perante a divina Majestade prevaleceu mais o amor do Filho do que a obstinação cega daquele povo.
Ponto IIA eficácia da súplica de Cristo estendida aos pecadores
Escreve São Leão Magno que, em virtude desta oração pronunciada pelo Salvador agonizante no Calvário, milhares de judeus se converteram mais tarde mediante a pregação de São Pedro no dia de Pentecostes, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos. Não quis o Eterno Pai que ficasse sem fruto a prece do seu Unigênito moribundo; e por isso infundiu a graça da fé e da contrição em multidões que haviam consentido na crucifixão do Cordeiro sem mancha.
Nesta mesma súplica compassiva incluiu Jesus a todos nós, pobres pecadores de todos os séculos. Podemos, pois, achegar-nos ao tribunal celeste e clamar com filial segurança: Ó Pai Eterno, atendei a voz do vosso amado Filho, que do alto da cruz vos suplica o perdão das nossas ofensas! Bem sabemos que não merecemos a vossa indulgência, mas merece-a com superabundância o vosso divino Filho, o qual satisfez cabalmente por todas as nossas iniquidades pelo derramamento de seu sangue preciosíssimo.
AFETOS E ORAÇÕES
Não, meu amabilíssimo Deus, não quero ser obstinado e surdo à vossa voz como foram os judeus empedernidos. Pesa-me, ó Pai clementíssimo, de ter desprezado a vossa suprema autoridade e tantas vezes retribuído os vossos benefícios com a ingratidão do pecado. Pelos merecimentos infinitos da agonia de Jesus, suplico-vos misericórdia e pleno perdão. E Vós, ó meu doce Redentor, bem sabeis quão enfermo e arruinado me encontro em consequência das minhas culpas; mas viestes do céu à terra precisamente para curar os enfermos espirituais e resgatar as ovelhas extraviadas que se arrependem de coração. Curai, pois, as feridas da minha alma e salvai-me pelos méritos da vossa sacratíssima Paixão. E vós, ó Mãe das dores, que no Calvário ouvistes ressoar esta prece salvadora, intercedei por mim e alcançai-me a graça de amar a Jesus com todo o meu coração até a morte. Amém.

