Da oração feita diante do Santíssimo Sacramento
SL 137,1
«Do mesmo Davi. Eu te glorificarei a ti, Senhor, de todo o meu coração: Porque ouviste as palavras da minha bôca. À vista dos anjos te cantarei salmos:»
SUMÁRIO
Santo Afonso propõe às comunidades religiosas uma presença organizada de oração junto de Jesus sacramentado.
Ponto I
A oração diante de Jesus Cristo, que habita no Sacramento do altar, depois daquela que se faz na santa comunhão, é de todas as devoções a mais querida a Deus e também a mais útil para nós. Embora o Senhor esteja pronto, em qualquer lugar, a ouvir quem lhe pede, no Santíssimo Sacramento dispensa suas graças mais abundantemente. Para isso aceita permanecer dia e noite em nossas igrejas: consolar quem vem visitá-lo e confiar-lhe suas necessidades.
Seria, pois, muito digno que todas as comunidades religiosas, formadas por pessoas consagradas ao amor de Jesus Cristo, designassem duas pessoas, ou ao menos uma, para lhe fazer companhia por uma hora, alternadamente, no Sacramento. Sucedendo-se umas às outras, manteriam uma presença contínua junto de Jesus sacramentado. Compreendo bem que isso não é possível em todas as comunidades; poderia, contudo, acontecer nas numerosas e naquelas em que reinam a observância e o espírito de perfeição. De fato, em várias comunidades de religiosos e religiosas, mesmo em nosso reino, existe essa bela devoção.
O Beato Francisco Caracciolo, fundador dos Clérigos Regulares Menores, determinou nas regras que os padres de sua ordem observassem essa bela prática de presença contínua e nunca interrompida junto do Santíssimo Sacramento. Informam-me que também em dois mosteiros de religiosas da Calábria, em Castrovillari e Rossano, se pratica essa santa observância.
É certo que, se na terra inteira houvesse uma única igreja onde Jesus Cristo permanecesse sobre o altar, ela estaria sempre cheia de fiéis, noite e dia, dedicados a venerar nosso Salvador. Ele se digna, por amor de nós, permanecer continuamente conosco sob as espécies de pão. Mas, como quis estar em tantas igrejas diferentes para ser encontrado por todos aqueles que o amam, acontece, por nossa ingratidão, que em muitas igrejas permanece sem companhia durante a maior parte do dia. Se as pessoas seculares o deixam assim, ao menos quem vive na vida religiosa deveria fazer-lhe companhia contínua, pois constitui a porção mais escolhida de sua corte.
Nos palácios dos monarcas nunca faltam muitas pessoas a servi-los, sobretudo aquelas que têm lugar na casa do príncipe. Assim são as pessoas religiosas que habitam nos mosteiros: gozam da honra de habitar a residência terrena do Rei celeste. Por isso o Padre Baltasar Álvarez chorava ao ver tanta gente nos palácios dos príncipes, enquanto ficavam vazias e abandonadas as igrejas em que Jesus Cristo permanece. Os santos agem de outro modo: quem ama Jesus Cristo de coração procura acompanhar esse Rei dos reis quanto pode nos altares em que permanece. São João Francisco Régis, encontrando a igreja fechada à noite, ajoelhava-se diante da porta, ao relento, e ali esperava em oração até que ela se abrisse. São Venceslau, rei, ia à noite, mesmo sobre a neve, visitar todas as igrejas onde estava o Santíssimo Sacramento.
Passemos à prática dessa devoção. Para realizá-la sem muita dificuldade, poderia proceder-se assim: atribua-se a cada pessoa religiosa, segundo sua antiguidade, uma hora do dia para fazer companhia ao Sacramento, excetuando quem estiver enfermo. A presença seria contínua também durante a noite; ao completar sua hora, a pessoa iria chamar a seguinte.
Essa era a proposta de quem se empenhava em promover a presença contínua junto do Santíssimo Sacramento. Contudo, não se pode exigir a mesma devoção de todas as comunidades. Além disso, o desejo de mantê-la não deve prejudicar os próprios deveres e a observância das regras. Para facilitar a prática, julgou-se oportuno dizer que, nos mosteiros onde não se pode mantê-la de dia e de noite, ela se faça ao menos durante as doze horas do dia, o que é bastante fácil. Deixem-se as horas noturnas, e durante as doze horas do dia doze religiosas façam companhia ao Santíssimo Sacramento, uma hora cada qual, alternadamente. Se a religiosa designada estiver impedida pelos trabalhos do mosteiro ou pelo cumprimento das regras, sua hora pode ser transferida a outra que esteja livre e queira assumi-la. Sendo assim bem ordenada sua devoção, quanto agrado darão a Jesus sacramentado!
Removidos, portanto, os obstáculos e as dificuldades que poderiam surgir, espera-se que esta exortação não fique inteiramente sem fruto, mas seja acolhida ao menos pelas comunidades numerosas e observantes nas quais floresce a devoção ao Santíssimo Sacramento. Por fim, recomenda-se esse santo exercício de oração contínua, ou durante as doze horas do dia, diante de Jesus sacramentado, à administração dos mosteiros e comunidades que possa promovê-lo. Receberá grande mérito diante de Deus, que tanto se agrada da companhia feita a seu Filho, presente no Sacramento do altar.

