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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Misericórdia de Deus em chamar o pecador à penitência

SEGUNDA-FEIRA, 20 DE JULHO · SÃO JERÔNIMO EMILIANI

Misericórdia de Deus em chamar o pecador à penitência

SL 68,4

«Cansei-me clamando, enrouqueceram-se as minhas fauces: Desfaleceram os meus olhos, enquanto espero no meu Deus.»

SUMÁRIO

Deus busca a alma que foge dele, chama-a à conversão e oferece a reconciliação.

Ponto I

Considera também a misericórdia de Deus ao chamar o pecador à penitência. Quando Adão se rebelou contra o Senhor e depois se escondeu de sua presença, Deus, tendo perdido Adão, vai procurá-lo e o chama como entre lágrimas: «E o Senhor Deus chamou por Adão, e lhe disse: Onde estás?» (Gn 3,9). O Padre Pereira comenta: «São palavras de um pai que procura seu filho perdido.»

Deus fez isso contigo muitas vezes. Tu fugias dele; ele te chamava, ora por inspirações, ora pelo remorso da consciência, ora por pregações, ora por tribulações, ora pela morte de pessoas amigas. Parece que Jesus Cristo diz a teu respeito: «Cansei-me clamando, enrouqueceram-se as minhas fauces: Desfaleceram os meus olhos, enquanto espero no meu Deus.» (Sl 68,4). Minha criatura, quase perdi a voz de tanto te chamar. Santa Teresa adverte os pecadores: quem vos chama é aquele mesmo Senhor que um dia vos julgará. Quantas vezes fechaste os ouvidos a Deus, quando ele te chamava! Merecias que deixasse de chamar-te. Contudo, teu Deus continuou a fazê-lo, porque queria reconciliar-se contigo e salvar-te.

Ó Deus, quem era aquele que te chamava? Um Deus de majestade infinita. E tu, que eras, senão um verme miserável e malcheiroso? E por que te chamava? Somente para devolver-te a vida da graça que havias perdido: «Porque eu não quero a morte do que morre, diz o Senhor Deus, convertei-vos, e vivei.» (Ez 18,32). Para adquirir a graça divina, seria pouco passar toda a vida num deserto. Deus, porém, te exortava a recebê-la num instante, se quisesses, por um ato de arrependimento; e tu a rejeitavas. Apesar disso, Deus não te abandonou: foi atrás de ti, como chorando e dizendo: por que desejas condenar-te? «Lançai.para muito longe de vós todas as vossas prevaricações, de que vos fizestes culpáveis: E fazei-vos um coração novo, e um espírito novo: E por que morrereis vós, casa de Jsrael?» (Ez 18,31).

Ao cometer pecado mortal, a pessoa expulsa Deus de sua alma: «Estes são os que disseram a Deus: Retira-te de nós, pois nós não queremos conhecer os teus caminhos.» (Jó 21,14). Que faz Deus? Põe-se à porta daquele coração ingrato: «Eis ai estou eu à porta, e-bato: Se algum ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei eu em sua casa, e cearei com ele, e ele comigo.» (Ap 3,20). Parece pedir à alma que lhe permita entrar: «A esposa. Eu durmo, e o meu coração vela: Eis a voz do meu amado que bate, dizendo: O esposo. Abre-me irmã minha, amiga minha, pomba minha, imaculada minha: Porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo as gotas das noites.» (Ct 5,2). Insiste em suplicar: «Cansei-me de rogar.» Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus segue os pecadores como um amante desprezado, rogando-lhes que não se percam. Foi isso que São Paulo significou ao escrever aos discípulos: «Logo nós fazemos o ofício de embaixadores em nome de Cristo, como que Deus vos admoesta por nós outros. Por Cristo vos rogamos que vos reconcilieis com Deus.» (2 Cor 5,20).

É bela a observação de São João Crisóstomo ao comentar essas palavras: «O próprio Cristo vos suplica. E que suplica? Reconciliai-vos com Deus; pois não é ele quem age como inimigo, mas vós.» O santo quer dizer que o pecador não precisa esforçar-se para convencer Deus a fazer as pazes: precisa resolver-se a aceitar a paz com Deus. É ele, e não Deus, quem foge da reconciliação.

Ah, esse bom Senhor vai diariamente atrás de tantos pecadores, dizendo-lhes: criaturas ingratas, não continueis a fugir de mim! Dizei por que fugis. Eu amo vosso bem e não desejo outra coisa senão fazer-vos felizes; por que quereis perder-vos? Mas, Senhor, que fazeis? Por que tanta paciência e amor para com esses rebeldes? Que bem esperais deles? Parece pouco digno de vossa honra mostrar-vos tão afeiçoado a esses miseráveis vermes que de vós fogem: «Que coisa é o homem para o engrandeceres? e por que pões sobre ele o teu coração?» (Jó 7,17).

AFETOS E ORAÇÕES

Eis, Senhor, a vossos pés a criatura ingrata que pede vossa misericórdia: Pai, perdoai-me. Chamo-vos Pai, porque quereis que assim vos chame. Meu Pai, concedei-me perdão. Não mereço compaixão: quanto maior foi vossa bondade para comigo, maior foi minha ingratidão para convosco. Pela mesma bondade que vos impediu, meu Deus, de abandonar-me enquanto eu fugia de vós, recebei-me agora que volto.

Dai-me, Jesus meu, uma dor profunda pelas ofensas que vos fiz, e concedei-me o beijo da paz. Mais que qualquer outro mal, arrependo-me das injúrias que vos causei. Detesto-as e abomino-as; uno meu horror por elas àquele que vós, meu Redentor, sentistes no horto de Getsêmani. Perdoai-me pelos méritos do sangue que ali derramastes por mim. Prometo com resolução nunca mais me afastar de vós e expulsar de meu coração todo afeto que não seja dirigido a vós. Meu Jesus e meu amor, acima de tudo vos amo; sempre vos quero amar, e somente a vós. Mas concedei-me força para cumpri-lo: fazei que eu vos pertença inteiramente. Maria, minha esperança, sois a Mãe da misericórdia: rogai a Deus por mim e tende compaixão de mim.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XVI, «Della misericordia di Dio», Punto II integral e «Affetti e preghiere», pp. 151–154 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.