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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

O vício da ira e o modo de o refrear

DOMINGO, 28 DE JUNHO · V DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O vício da ira e o modo de o refrear

MT 5,22

«Pois eu digo-vos: Que todo o que se ira contra seu irmão, será réu no juízo. E o que disser a seu irmão: Raca, será réu no conselho: E o que lhe disser: És um tolo, será réu do fogo do inferno.»

SUMÁRIO

A mansidão domina a ira, protege a alma e responde ao mal com o bem, segundo o exemplo de Jesus.

A ira se parece com o fogo. Assim como o fogo age com violência e, depois de alastrar-se, impede até a visão pela fumaça que produz, a cólera faz a pessoa cair em mil excessos e não a deixa ver o que faz. Torna-a, assim, ré do juízo da morte eterna: «Pois eu digo-vos: Que todo o que se ira contra seu irmão, será réu no juízo. E o que disser a seu irmão: Raca, será réu no conselho: E o que lhe disser: És um tolo, será réu do fogo do inferno.» (Mt 5,22). A cólera é tão prejudicial que desfigura até a aparência exterior. Por mais bela e graciosa que seja uma pessoa, quando se encoleriza parece um monstro, uma fera que assusta. São Basílio diz: «Quem se entrega à ira como que perde a figura humana e toma aspecto de fera.» Se a ira nos desfigura diante das pessoas, quanto mais deformidade nos dará aos olhos de Deus! Neste discurso mostrarei, primeiro, a ruína que a ira sem freio traz à alma; segundo, como devemos refreá-la nas ocasiões que surgem.

Ponto IA ruína que a ira sem freio traz à alma

São Jerônimo diz que a cólera é a porta por onde todos os vícios entram na alma. Ela precipita a pessoa em vinganças, blasfêmias, injustiças, murmurações, escândalos e outras iniquidades. A paixão da ira obscurece a razão, levando a agir como um animal ou uma pessoa insensata. Jó dizia: «Escureceram-se de indignação meus olhos, e os meus membros foram como reduzidos a nada.» (Jó 17,7). Davi disse o mesmo: «Tem misericórdia de mim, Senhor, que estou atribulado: Conturbado com o pesar está o meu ôlho, a minha alma, e as minhas entranhas:» (Sl 30,10). São Boaventura escreveu que quem se encoleriza age às cegas, sem distinguir o justo do injusto. Em suma, São Jerônimo diz que a cólera faz perder prudência, razão e juízo, afastando de todo bom conselho, de modo que a pessoa parece enlouquecer enquanto se ira. São Tiago escreveu: «Porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus.» (Tg 1,20). As ações de quem está tomado pela ira não podem conformar-se à justiça divina nem, consequentemente, ficar isentas de culpa.

Quem se deixa tomar pela ira e não procura refreá-la facilmente cai no ódio contra quem a provocou. Santo Agostinho diz que o ódio é uma ira que perdura. São Tomás escreveu: «A ira é súbita; o ódio, prolongado.» Quando a ira permanece em alguém, é sinal de que ali também reina o ódio. Dirás, porém: tenho responsabilidade sobre minha casa, devo corrigir filhos e empregados e elevar a voz, quando necessário, contra as desordens que vejo. Respondo: uma coisa é irar-se contra o próximo; outra, contra seu pecado. Irar-se contra o pecado propriamente não é ira, mas zelo. Não só é lícito, como às vezes necessário, desde que se faça com a devida prudência, deixando claro que nos indignamos contra o pecado, mas não contra quem pecou. Se a pessoa corrigida percebe que falamos por paixão e por ódio contra ela, a correção não dará fruto; antes, causará maior dano. Irar-se contra o pecado do próximo é lícito. Santo Agostinho diz: «Não se ira contra seu irmão quem se ira contra o pecado do irmão.» Isso é irar-se sem culpa, conforme Davi: «Irai-vos e não queirais pecar: Do que dizeis nos vossos corações compungi-vos nos vossos leitos.» (Sl 4,5). Irar-se contra a pessoa por seu pecado, porém, nunca é lícito. Como diz o mesmo Santo Agostinho, não podemos odiar as pessoas por seus vícios.

O ódio facilmente traz consigo o desejo de vingança. São Tomás escreveu que a ira plenamente voluntária anda unida a esse desejo: «A ira é o apetite da vingança.» Alguém diz: se me vingo dessa pessoa, Deus me compadece, porque tenho muita razão. Respondo: quem diz que tens tanta razão? Tu, cuja mente está obscurecida pela ira. Já disse que ela obscurece a mente e faz perder razão e juízo. Enquanto dura a cólera, a ação do próximo te parecerá uma injúria enorme e insuportável. Depois, quando passar, verás que não era tão grave quanto supunhas. Admitamos, porém, que a injúria seja grave, gravíssima: por que afirmar que Deus se compadecerá de ti caso te vingues? Deus diz: a vingança dos pecados não te compete; compete a mim. Quando chegar o tempo, saberei castigar os delitos como merecem: «Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago a seu tempo, quando resvalar o seu pé: perto está o dia da sua perdição, e os momentos dela se apressam por chegar.» (Dt 32,35). Queres vingar-te da injúria feita pelo próximo? Deus também quererá, com justiça, vingar tantas injúrias que lhe fizeste, especialmente esta, pois te manda perdoar: «Aquele que quer vingar-se encontrará a vingança do Senhor, e ele lhe reservará para sempre os seus pecados.» (Eclo 28,1).

O Eclesiástico se admira: «O homem guarda a sua ira para outro homem, e pede a Deus remédio?» «Ele sendo carne conserva rancor, e pede propiciação a Deus? Quem lha alcançará pelos seus delitos?» (Eclo 28,3.5). Uma pessoa, um verme de carne, conserva a ira para vingar-se de seu próximo e depois ousa pedir misericórdia a Deus! Quem poderá rezar pelos pecados de tal temeridade? Santo Agostinho escreve: «Com que rosto poderá alcançar indulgência de seus pecados quem não aceita obedecer à ordem de dar perdão?» Com que rosto pretenderá obter de Deus o perdão de seus pecados quem recusa obedecer-lhe, perdoando ao próximo?

Peçamos ao Senhor que nos livre de cair sob alguma paixão forte, especialmente a ira: «Tira de mim os apetites do ventre, e não se apoderem de mim as concupiscências do ato carnal, e não me entregues a uma alma sem vergonha e sem recato.» (Eclo 23,6). Então será difícil não cair em alguma culpa grave contra o próximo ou contra Deus. Quantas pessoas, por não refrearem a cólera, irrompem em blasfêmias horrendas contra Deus ou seus santos! Ao mesmo tempo em que nos inflamamos de indignação, Deus arma sua mão de flagelos. Jeremias escreve que o Senhor lhe perguntou: «E me foi inspirada a palavra do Senhor, a qual dizia: Que vês tu, Jeremias? E lhe respondi: Eu vejo uma vara vigilante.» (Jr 1,11). Depois Deus tornou a perguntar: «E segunda vez me foi dirigida a palavra do Senhor, a qual dizia: Que vês tu? E lhe respondi: Eu vejo uma marmita incendiada, que vem ela do lado do Aquilão.» (Jr 1,13). Essa panela representa uma pessoa inflamada de ira, sobre a qual paira a vara, isto é, a vingança divina.

Eis a ruína que a cólera desenfreada traz: primeiro faz perder a graça divina e depois até a vida temporal, como diz o Eclesiástico: «A inveja e a ira abreviam os dias, e o cuidado fará chegar a velhice antes do tempo.» (Eclo 30,26). Jó disse: «Certamente a ira mata o fátuo, e a inveja mata o pequeno.» (Jó 5,2). Nos dias em que vivem, as pessoas iracundas passam uma vida infeliz, sempre em tempestade. Passemos ao segundo ponto: ainda há muitas coisas úteis a dizer para remediar esse vício.

Ponto IIComo refrear a ira nas ocasiões que surgem

Antes de tudo, compreendamos que, pela fraqueza humana, é impossível que, entre tantas vicissitudes, nunca surja no espírito algum movimento de ira. Como diz Sêneca, ninguém está inteiramente livre da cólera. Nosso cuidado deve ser moderá-la quando começa a entrar em nós. E como se modera a ira? Pela mansidão. Essa virtude se chama a virtude do cordeiro, a virtude amada por Jesus Cristo, pois ele, como cordeiro, sem irar-se e sem sequer se queixar, sofreu sua Paixão e foi sacrificado na cruz: «Foi oferecido, porque ele mesmo quis, e não abriu a sua bôca: Ele será levado como uma ovelha ao matadouro, e como um cordeiro diante do que o tosquia emudecerá, e não abrirá a sua bôca.» (Is 53,7). Recomendou-nos aprender dele a mansidão e a humildade de coração: «Tomai sôbre vós meu jugo; e aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração: E achareis descanso para as vossas almas.» (Mt 11,29).

Quanto agrada a Deus uma pessoa mansa, que suporta em paz acontecimentos adversos, desgraças, perseguições e injúrias! O paraíso está prometido à mansidão: «Bem-aventurados os mansos: Porque êles possuirão a terra.» (Mt 5,4). As pessoas pacíficas recebem o nome de filhos de Deus: «Bem-aventurados os pacíficos: Porque êles serão chamados filhos de Deus.» (Mt 5,9). Há quem se gabe falsamente de mansidão, pois é manso com quem o beneficia ou elogia, mas é todo furor e vingança contra quem o injuria ou prejudica. A virtude, porém, consiste em ser manso e pacífico com quem nos maltrata e odeia: «Com os que aborreciam a paz era pacífico: Quando lhes falava êles me contradiziam sem razão.» (Sl 119,7). Devemos revestir-nos, como diz São Paulo, de entranhas de misericórdia para com todo próximo, suportando-nos mutuamente: «Vós pois como escolhidos de Deus, Santos, e amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, de bcnignidade, de humildade, de modéstia, de paciência:» «Sofrendo-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro, assim como ainda o Senhor vos perdoou a vós, assim também vós.» (Cl 3,12-13). Quereis que outros vos suportem naquele defeito que tendes; se têm alguma razão de queixa, quereis que a perdoem. Fazei o mesmo com os outros.

Ao encontrar alguém que está irado convosco, lembrai: «A resposta branda quebra a ira: A palavra dura suscita o furor.» (Pr 15,1). Um monge atravessava uma plantação, quando o lavrador veio ao seu encontro e o cobriu de injúrias. O monge respondeu humildemente: «Irmão, tens razão; agi mal; perdoa-me.» A resposta tanto abrandou o lavrador que, além de passar toda a cólera, quis segui-lo e tornar-se monge com ele. As pessoas soberbas convertem as humilhações recebidas em aumento de soberba; as humildes e mansas convertem os desprezos em aumento de humildade. São Bernardo diz: «É humilde quem transforma a humilhação em humildade.»

São João Crisóstomo escreve: «Quem é manso é útil a si e aos outros.» É útil a si, pois o Padre Álvarez dizia que o tempo em que recebemos desprezos é o tempo dos méritos. Jesus chamou bem-aventurados seus discípulos quando fossem amaldiçoados e perseguidos: «Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, e vos perseguirem, e disserem todo o mal contra vós, mentindo, por meu respeito:» (Mt 5,11). Por isso, os santos sempre desejaram receber desprezos, como Jesus Cristo os recebeu. Quem é manso também é útil aos outros: o mesmo Crisóstomo diz que nada atrai tanto as pessoas a entregar-se a Deus quanto ver uma pessoa cristã mansa e alegre ao receber injúrias. A virtude se conhece pela prova. Como o ouro se prova no fogo, a mansidão se prova nas humilhações: «Porque no fogo se prova o ouro e a prata, e os homens que Deus quer receber na fornalha da humilhação.» (Eclo 2,5). No Cântico dos Cânticos se diz: «A espôsa. Quando o rei estarn no seu repouso, deu o meu nardo o seu cheiro.» (Ct 1,11). O nardo é uma erva aromática que só espalha seu perfume quando friccionada e pisada. Isso significa que não se pode afirmar a mansidão de alguém antes de verificar, pela experiência, que, ao receber injúrias e maus-tratos, faz sentir o perfume dessa virtude, suportando tudo em paz, sem cólera.

Deus quer que sejamos mansos também conosco. Quando cometemos alguma culpa, o Senhor quer que nos humilhemos, sintamos dor e proponhamos não voltar a cometê-la; não quer, contudo, que nos enfureçamos contra nós e fiquemos perturbados. Uma pessoa perturbada não está então apta a agir bem: «O meu coração está conturbado, a minha fôrça me desamparou: E ainda o mesmo lume dos meus olhos não está já comigo.» (Sl 37,11). Ao receber afrontas, devemos esforçar-nos por conter a ira: responder com doçura, como já foi dito, ou ao menos fechar a boca e não falar. Assim venceremos, conforme São Isidoro: «Por mais que alguém te provoque, dissimula; pelo silêncio vencerás.» Respondendo com ira, causarás dano a ti e aos outros. Pior ainda seria responder com ira a quem te corrige. São Bernardo diz: «Ira-se contra quem cura quem não se ira contra quem o fere.» Há quem não se indigne — quando deveria justamente indignar-se — com quem o fere no espírito pela adulação, mas se enfureça contra quem o repreende para curar suas desordens.

Contra quem aborrece as correções há uma sentença de perdição, conforme o Sábio: «nem se submeteram ao meu conselho e desacreditaram tôda a minha repreensão.» «A aversão dos meninos os matará, e a prosperidade dos insensatos os virá a perder.» (Pr 1,30.32). Diz «a prosperidade dos insensatos»: consideram prosperidade não ter quem os corrija ou desconsiderar as correções recebidas. Essa prosperidade, porém, causa sua ruína.

Quando surgir uma ocasião de ira, devemos primeiro guardar-nos para impedir-lhe a entrada: «Não sejas veloz em te irares: Porque a ira descansa no seio do insensato.» (Ecl 7,10). Algumas pessoas, ao ouvir algo que as fere, imediatamente mudam de rosto e entram em cólera; uma vez que ela entrou, Deus sabe até onde as levará. É necessário preparar-nos para esses encontros em nossas orações. Sem preparação, será depois difícil conter a ira, assim como é difícil frear um cavalo já em disparada.

Se, por desgraça, a cólera já entrou em nós, cuidemos para que não permaneça. Jesus Cristo disse que, se alguém se lembra de que seu irmão está desgostoso consigo, não ofereça o dom trazido ao altar antes de reconciliar-se com ele: «Deixa ali a tua oferta diante do altar e vai-te reconciliar primeiro com teu irmão: E depois virás fazer a tua oferta.» (Mt 5,24). Quem sofreu ofensa deve procurar arrancar do coração toda indignação e toda amargura contra quem o ofendeu: «Tóôda a amargura, e ira, e indignação, e gritaria, e blasfêmia, com toda a malícia seja desterrada dentre vós outros.» (Ef 4,31). Enquanto durar a ira, Sêneca aconselha: «Quando estiveres irado, não faças nem digas nada que a ira mande.» Ao perceber perturbação, cala, não fales, como Davi: «Adiantaram-se às vigílias os meus olhos: Fiquei perturbado, e não falei.» (Sl 76,5). A quantas pessoas sucede que, depois de fazer ou dizer algo enquanto fervia a indignação, apagado o fogo, se arrependem e dizem: eu estava em cólera! Portanto, na cólera, devemos calar e nada fazer. Nada fazer nem resolver, pois tudo que se pratica no calor da ira será injusto, conforme a máxima de São Tiago: a ira humana não opera a justiça de Deus.

Nesse tempo devemos evitar completamente aconselhar-nos com quem possa alimentar a indignação: «Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios, e que não se deteve no caminho dos pecadores, e que não se assentou na cadeira empestada pelo vício.» (Sl 1,1). O Eclesiástico adverte quem é procurado para dar conselho: «Se assoprares a faisca, ela como fogo se inflamará, e se cuspires sobre ela, se apagará: Sendo que uma e outra coisa da bôca nasce.» (Eclo 28,14). Quando alguém sofre por uma injúria recebida, um bom conselho de paciência pode apagar o fogo; um sopro de vingança pode acender grande chama. Quem está um pouco inflamado de ira deve guardar-se de falsos amigos que, por uma única palavra imprudente, podem levá-lo à perdição.

Sigamos o conselho do Apóstolo: «Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.» (Rm 12,21). Não te deixes vencer pelo mal, pelo pecado: se te vingas ou blasfemas por ira, o pecado te venceu. Mas tenho natureza ardente! Com a graça de Deus e fazendo esforço, podes vencer tua má inclinação natural. Não queiras irar-te e dominarás tua natureza ardente. Mas não consigo tolerar as coisas erradas! Respondo: primeiro, a ira ofusca a visão e impede ver as coisas como são: «Serão destruídos como a cera que se derrete: Caiu fogo de cima, e não viram o sol.» (Sl 57,9). Segundo, se quiseres pagar ao inimigo mal com mal, por ele serás vencido e perdido. Davi dizia: «Se paguei mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo dos meus inimigos sem esperança.» (Sl 7,5). Se retribuo mal por mal, ficarei abatido pelos inimigos. Vence o mal com o bem: retribui-lhes bem por mal, conforme Jesus Cristo: «Mas digo-vos a vós outros, que me ouvis: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio.» (Lc 6,27). Essa é a vingança dos santos, chamada por São Paulino «vingança celeste»; assim vencerás.

Se alguma dessas pessoas de quem o profeta diz «Aguçaram as suas línguas como a de serpente: Veneno de áspides têm debaixo de seus lábios.» (Sl 139,4) te perguntar: como engoles essa injúria?, responde: «Porém Jesus disse a Pedro: Mete a tua espada na bainha. Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?» (Jo 18,11). Depois, voltando-te a Deus, dirás: «Emudeci, e não abri a minha bôca, porque tu o fizeste:» (Sl 38,10). É certo que todo sofrimento que nos acontece vem de Deus: «Os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e as riquezas, tudo isto vem de Deus.» (Eclo 11,14). Quando alguém te toma um bem, recupera-o se puderes; caso contrário, dize como Jó: «e disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá: O Senhor o deu, o Senhor o tirou: Como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu: Bendito seja o nome do Senhor.» (Jó 1,21; numeração latina). Um filósofo que perdeu seus bens numa tempestade marítima disse: se perdi os bens, não quero perder a paz. Tu, porém, dize: se perdi os bens, não quero perder a alma.

Enfim, ao ocorrerem adversidades, perseguições e injúrias, olhemos para Deus, que nesses casos nos manda ter paciência; evitaremos assim a ira: «Lembra-te do temor de Deus, e não te ires contra o teu próximo.» (Eclo 28,8). Olhemos para a vontade divina, que assim dispõe para nosso mérito, e cessará a indignação. Olhemos para Jesus crucificado, e não teremos ânimo de queixar-nos. Sua esposa perguntou a Santo Eleázaro como fazia para receber tantas injúrias sem se encolerizar. Respondeu: volto-me para Jesus crucificado e assim me aquieto. Olhemos, finalmente, para nossos pecados, pelos quais merecemos desprezos e castigos maiores, e suportaremos tudo em paz. Santo Agostinho diz que, embora às vezes sejamos inocentes da culpa pela qual nos perseguem, somos réus de outros pecados, que merecem castigo maior que aquele que nos aflige: «Mesmo que não tenhamos o pecado que nos atribuem, temos outro pelo qual merecemos ser castigados.»

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Sermoni compendiati per tutte le domeniche dell’anno (1771), Sermone XXXIV, «Contro il vizio dell’ira», introdução e dois pontos integrais, pp. 495–500 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.