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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Do grande amor que nos tem Maria Santíssima

SÁBADO, 20 DE JUNHO · NOSSA SENHORA NO SÁBADO

Do grande amor que nos tem Maria Santíssima

PR 8,17

«Eu amo aos que me amam: E os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão.»

SUMÁRIO

Maria ama como Mãe: por seu amor a Deus, pela recomendação de Jesus na cruz, pelo sofrimento de sua oferta e pelo preço de nossa redenção. Os santos responderam a esse amor, que sempre supera o deles.

Ponto I

Se Maria é nossa Mãe, podemos considerar quanto nos ama. O amor aos filhos é um amor necessário. Por isso, como observa São Tomás, a lei divina impõe aos filhos o preceito de amar os pais, mas não impõe expressamente aos pais o de amar os filhos: a própria natureza infundiu esse amor com tamanha força que até as feras mais selvagens, segundo Santo Ambrósio, não podem deixar de amar suas crias. A natureza infunde nas feras o amor por seus filhotes. Os historiadores contam que até os tigres, ouvindo a voz das crias levadas pelos caçadores, se lançam a nadar no mar até alcançar os navios onde elas estão. Se nem os tigres sabem esquecer seus filhos, diz nossa amantíssima Mãe Maria, como poderia eu esquecer de vos amar, meus filhos? «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu menino de peito, de sorte que não tenha compaixão do filhc de suas entranhas? Mas se ela se esquecer dele, eu todavia não me esquecerei de ti.» (Is 49,15) Mesmo que, por impossível, uma mãe se esquecesse de um filho, acrescenta ela, não é possível que eu deixe de amar uma alma que é minha filha.

Maria é nossa Mãe, como dissemos, pelo amor, não pela carne: «Eu sou a mãe do amor formoso, e do temor, e do conhecimento,' e da santa esperança.» (Eclo 24,24) O amor que nos tem a faz tornar-se nossa Mãe. Por isso, diz um autor, ela se gloria em ser Mãe do amor: tendo-nos recebido como filhos, é toda amor para conosco.

Quem poderá explicar o amor de Maria por nós, miseráveis? Arnoldo de Chartres diz que, na morte de Jesus Cristo, ela desejava com imenso ardor morrer junto com o Filho por nosso amor: A Virgem ardia, abrasada por intensa caridade, desejando derramar a vida com o Filho pela salvação do gênero humano. Santo Ambrósio acrescenta que, enquanto o Filho pendia moribundo na cruz, Maria se oferecia aos algozes para dar a vida por nós: O Filho pendia na cruz; a Mãe oferecia-se aos perseguidores.

Consideremos as razões desse amor, para compreender melhor quanto essa boa Mãe nos ama. A primeira razão do grande amor de Maria pelos homens é seu grande amor a Deus. Como escreveu São João, um mesmo preceito governa o amor a Deus e ao próximo: «E nós temos de Deus este mandamento: Que o que ama a Deus, ame também a seu irmão.» (Primeira Epístola de São João, capítulo IV, versículo 21) Quanto cresce um, tanto aumenta o outro. Sabemos, por isso, quanto os santos fizeram pelo próximo, porque amavam muito a Deus. Chegaram a expor e perder a liberdade e até a vida pela salvação dele.

Leia-se o que São Francisco Xavier fez nas Índias: para ajudar as almas daqueles povos, subia as montanhas, arriscando-se entre mil perigos, a fim de encontrar os miseráveis nas cavernas onde viviam como feras e conduzi-los a Deus. São Francisco de Sales, para converter os hereges da província do Chablais, arriscou-se durante um ano, atravessando diariamente o rio de gatinhas sobre uma viga gelada, para pregar aos obstinados da outra margem. São Paulino entregou-se como escravo para obter a liberdade do filho de uma pobre viúva. São Fidélis aceitou perder a vida enquanto pregava, para levar a Deus os hereges de um lugar. Os santos chegaram a fazer tanto por amor do próximo porque amavam muito a Deus.

Ponto II

Mas quem amou a Deus mais que Maria? No primeiro instante de sua vida, ela amou a Deus mais que os santos e os anjos todos, ao longo de suas vidas, como depois consideraremos longamente ao tratar de suas virtudes. A própria Virgem revelou à irmã Maria Crucificada que o fogo de seu amor a Deus era tão grande que, se nele fossem postos todo o céu e a terra, seriam consumidos num instante. Dizia que, em comparação com ele, todos os ardores dos serafins eram como brisas frescas. Assim como nenhum espírito bem-aventurado ama a Deus mais do que Maria, também não temos nem podemos ter, depois de Deus, quem nos ame mais que essa nossa amorosíssima Mãe.

Se reuníssemos o amor de todas as mães por seus filhos, de todos os esposos por suas esposas e de todos os santos e anjos por seus devotos, ele não chegaria ao amor de Maria por uma única alma. O padre Nieremberg diz que o amor de todas as mães por seus filhos é sombra comparado ao amor de Maria por cada um de nós; ela, por si só, supera o amor que todos os santos e anjos reunidos nos têm.

Nossa Mãe nos ama muito também porque seu amado Jesus nos recomendou a ela como filhos, quando, antes de expirar, lhe disse: «Jesus pois tendo visto sua mãe, e ao discípulo que êle amava, o qual estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.» (Jo 19,26) Na pessoa de João indicava-lhe todos nós, como já consideramos. Essas foram as últimas palavras que o Filho lhe disse. As últimas recomendações deixadas pelas pessoas amadas na hora da morte são muito estimadas, e nunca se pode perder sua memória.

Além disso, somos filhos muito caros a Maria porque lhe custamos muita dor. As mães amam especialmente os filhos cuja vida lhes custou mais esforço e sofrimento conservar. Somos esses filhos: para nos alcançar a vida da graça, Maria teve de sofrer a pena de oferecer à morte a querida vida de seu Jesus, consentindo por nós em vê-lo morrer diante de seus olhos, sob a força dos tormentos. Por essa grande oferta de Maria nascemos então para a vida da graça divina. Somos, portanto, filhos muito caros porque lhe custamos muita aflição.

Assim como está escrito do amor do Pai eterno pelos homens, ao entregar à morte por nós seu próprio Filho: «Porque assim amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito: Para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna.» (Jo 3,16) também, diz São Boaventura, pode-se dizer de Maria: Maria nos amou de tal modo que entregou seu Filho unigênito. Quando o entregou? Entregou-o, diz o padre Nieremberg, ao consentir primeiramente que ele fosse à morte. Entregou-o quando, faltando todos os outros por ódio ou temor, somente ela poderia ter defendido suficientemente a vida do Filho perante os juízes. Pode-se bem crer que as palavras de uma mãe tão sábia e tão terna para com o filho teriam tido grande força, ao menos junto de Pilatos, para impedir a condenação à morte de um homem que ele próprio reconheceu e declarou inocente. Maria, porém, não quis dizer sequer uma palavra em favor do Filho, para não impedir a morte da qual dependia nossa salvação.

Ponto III

Por fim, Maria nos deu o Filho milhares de vezes aos pés da cruz, durante as três horas em que assistiu à sua morte. A cada instante, com suma dor e sumo amor por nós, sacrificava por nós a vida do Filho. Tamanha foi sua constância que Santo Anselmo e Santo Antonino dizem que, se então faltassem os algozes, ela mesma o teria crucificado para obedecer à vontade do Pai, que o queria morto por nossa salvação. Se Abraão realizou semelhante ato de fortaleza, querendo sacrificar o filho com suas próprias mãos, devemos crer que Maria, mais santa e obediente que Abraão, certamente o teria realizado com maior constância.

Voltando a nosso ponto: com quanta gratidão devemos viver para com Maria por esse ato de amor! Refiro-me ao sacrifício da vida do Filho, que ela fez com tanta dor para alcançar a salvação de todos nós. O Senhor recompensou bem Abraão pelo sacrifício de Isaac que se preparou para lhe oferecer; mas que podemos dar a Maria pela vida de seu Jesus, que nos entregou, Filho muito mais nobre e amado que o filho de Abraão? Esse amor de Maria, diz São Boaventura, nos obriga imensamente a amá-la: vemos que nos amou mais que qualquer outra criatura, dando-nos seu único Filho, a quem amava mais que a si. Nenhuma criatura, depois dela, ardeu tanto por nosso amor: deu-nos seu único Filho, a quem amava muito mais do que a si, e o ofereceu por nós.

Daí nasce outro motivo pelo qual somos tão amados por Maria: ela vê que somos o preço da morte de Jesus Cristo. Se uma mãe visse um servo resgatado por seu filho amado mediante os padecimentos de vinte anos de prisão e privações, quanto estimaria esse servo só por essa razão! Maria sabe que o Filho veio à terra somente para salvar a nós, miseráveis, como ele declarou: «Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que tinha perecido.» (Lc 19,10) Para nos salvar, consentiu em gastar também a vida: «Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz.» (Fl 2,8) Portanto, se Maria nos amasse pouco, mostraria estimar pouco o sangue do Filho, preço de nossa salvação.

Foi revelado a Santa Isabel, religiosa, que Maria, desde quando estava no templo, não fazia senão rogar por nós, pedindo a Deus que enviasse logo o Filho para salvar o mundo. Quanto mais devemos pensar que nos ama agora, depois de nos ver tão estimados pelo Filho, que não recusou comprar-nos a tão grande custo!

Como todos os homens foram remidos por Jesus, Maria ama e favorece a todos. São João a viu vestida do sol: «Apareceu outrossim um grande sinal no céu: Uma mulher vestida do Sol, que tinha a Lua debaixo de seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça:» (Ap 12,1) Diz-se vestida do sol porque, assim como na terra ninguém pode esconder-se de seu calor — «a sua saída é desde uma extremidade dêle: E não há quem se esconda do seu calor.» (Sl 18,7) —, também não há vivente na terra privado do amor de Maria. O Idiota aplica esse calor ao amor de Maria. Quem poderá compreender, diz Santo Antonino, o cuidado dessa amorosa Mãe por todos nós? Que cuidado tem a Virgem Mãe conosco! Por isso oferece e distribui a todos sua misericórdia, abrindo a todos seu seio misericordioso. Nossa Mãe desejou a salvação de todos e cooperou para a salvação de todos. São Bernardo afirma: É certo que teve solicitude por todo o gênero humano.

Ponto IV

Muito útil é a prática de alguns devotos de Maria que, segundo Cornélio a Lápide, costumam pedir ao Senhor que lhes conceda as graças que a bem-aventurada Virgem pede por eles, dizendo: Senhor, dai-me o que Maria Santíssima pede por mim. E com razão, diz Lápide, pois nossa Mãe deseja para nós bens maiores do que os que nós mesmos podemos desejar. O devoto Bernardino de Busto diz que Maria deseja fazer-nos o bem e distribuir-nos as graças mais do que nós desejamos recebê-las. Por isso o beato Alberto Magno aplica a Maria as palavras da Sabedoria: «Ela se antecipa aos que a cobiçam, de tal sorte que se lhes patenteia primeira.» (Sb 6,14) Maria se antecipa aos que recorrem a ela, fazendo-se encontrar antes que a procurem. Tão grande é o amor dessa boa Mãe por nós, diz Ricardo, que, vendo nossas necessidades, vem socorrer-nos antes que lhe peçamos socorro.

Se Maria é tão boa com todos, mesmo com os ingratos e negligentes que pouco a amam e pouco recorrem a ela, quanto mais amorosa será com os que a amam e invocam frequentemente! «Esclarecida é a sabedoria, e tal que nunca se murcha, e facilmente é vista por aqueles que a amam, e achada pelos que a buscam.» (Sb 6,13) Como é fácil, acrescenta o mesmo beato Alberto, encontrá-la para quem a ama, e encontrá-la cheia de piedade e amor! «Eu amo aos que me amam: E os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão.» (Pr 8,17) Ela declara que não pode deixar de amar quem a ama. Embora essa amantíssima Senhora ame todos os homens como filhos, São Bernardo diz que reconhece e ama de modo particular os que a amam mais ternamente. O Idiota afirma que esses felizes amantes de Maria não são apenas amados, mas também servidos por ela: Encontrando a Virgem Maria, encontra-se todo o bem; ela ama quem a ama e serve quem a serve.

Conforme se narra nas crônicas da Ordem, estava morrendo Leonardo, dominicano, que se recomendava duzentas vezes por dia a essa Mãe de misericórdia. Certo dia viu junto de si uma belíssima Rainha, que lhe disse: Leonardo, quereis morrer e vir para junto de meu Filho e de mim? O religioso respondeu: E vós, quem sois? A Virgem respondeu: Sou a Mãe das misericórdias; vós me invocastes tantas vezes, e eis que vim buscar-vos. Vamos ao paraíso. Leonardo morreu naquele mesmo dia, e esperamos que a tenha seguido ao reino bem-aventurado.

Ah, dulcíssima Maria, feliz quem vos ama! O venerável irmão João Berchmans, da Companhia de Jesus, dizia: Se amo Maria, estou seguro da perseverança e alcançarei de Deus quanto desejar. Por isso o devoto jovem nunca se cansava de renovar seu propósito e repetir consigo: Quero amar Maria, quero amar Maria.

Quanto essa boa Mãe supera em amor todos os seus filhos! Amem-na quanto puderem: Maria, diz Santo Inácio mártir, é sempre mais amante para com quem a ama. Amem-na tanto quanto Santo Estanislau Kostka, que amava tão ternamente essa querida Mãe que, ao falar dela, despertava o desejo de amá-la em quem o ouvia. Inventara palavras e títulos novos para honrar seu nome. Não começava ação alguma sem voltar-se antes para uma imagem sua e pedir-lhe a bênção. Ao recitar-lhe o Ofício, o rosário ou outras orações, fazia-o com tal afeto e expressão como se falasse com Maria face a face. Quando ouvia cantar a Salve Rainha, inflamava-se todo na alma e também no rosto. Um padre da Companhia perguntou-lhe, enquanto iam juntos visitar uma imagem da Virgem, quanto a amava. Respondeu: Padre, que mais posso dizer? Ela é minha Mãe. Depois, aquele padre disse que o santo jovem pronunciara essas palavras com tamanha ternura na voz, no semblante e no coração que parecia um anjo falando do amor de Maria, e não um jovem.

Ponto V

Amem-na tanto quanto o beato Hermano, que a chamava sua esposa de amor, pois Maria também o honrou com o nome de esposo. Tanto quanto São Filipe Néri, que tanto se consolava apenas pensando em Maria que a chamava sua delícia. Tanto quanto São Boaventura, que não a chamava somente sua Senhora e Mãe, mas, para manifestar a ternura de seu afeto, chegava a chamá-la seu coração e sua alma: Salve, minha Senhora, minha Mãe; mais ainda, meu coração, minha alma.

Amem-na também tanto quanto aquele grande amante de Maria, São Bernardo, que tanto amava essa doce Mãe que a chamava aquela que rouba os corações. Para exprimir o amor ardente que lhe tinha, dizia-lhe: Não arrebatastes meu coração? Chamem-na sua enamorada, como São Bernardino de Sena, que ia diariamente visitá-la numa devota imagem, declarando-lhe seu amor em ternos colóquios com sua Rainha. A quem lhe perguntava aonde ia todos os dias, respondia que ia encontrar sua enamorada.

Amem-na quanto São Luís Gonzaga, que ardia continuamente de amor por Maria. Mal ouvia ressoar o dulcíssimo nome de sua querida Mãe, o coração logo se lhe acendia, e a chama aparecia rubra no rosto, visível a todos. Amem-na quanto São Francisco Solano, que, quase enlouquecido, mas com santa loucura, pelo amor de Maria, punha-se às vezes com um instrumento a cantar o amor diante de sua imagem, dizendo que, como os amantes do mundo, fazia sua serenata à Rainha querida.

Amem-na tanto quanto os inúmeros servos que já não sabiam que fazer para mostrar seu amor. O padre Jerônimo de Trejo, da Companhia de Jesus, alegrava-se em chamar-se escravo de Maria e, em sinal dessa escravidão, visitava-a frequentemente numa igreja. Que fazia ali? Ao chegar, molhava-a primeiro com lágrimas pela ternura do amor que sentia por Maria; depois varria-a com a língua e o rosto, beijando mil vezes o pavimento, pensando ser aquela a casa de sua amada Senhora.

O padre Diogo Martínez, da mesma Companhia, por sua devoção a Nossa Senhora, era levado pelos anjos ao céu nas festas de Maria para ver com que honra eram celebradas. Dizia: Quisera ter todos os corações dos anjos e santos para amar Maria como a amam; quisera ter as vidas de todos os homens para gastá-las todas por amor de Maria.

Outros cheguem a amá-la quanto Carlos, filho de Santa Brígida, que dizia não conhecer maior consolação no mundo do que saber Maria tão amada por Deus. Acrescentava que aceitaria de boa vontade qualquer pena para impedir que Maria perdesse, se pudesse perder, um só grau de sua grandeza; e, se essa grandeza fosse dele, renunciaria a ela em favor de Maria, muito mais digna de possuí-la.

Desejem dar a vida como testemunho de amor a Maria, como desejava Afonso Rodrigues. Cheguem finalmente a gravar no peito, com ferros pontiagudos, o amável nome de Maria, como fizeram o religioso Francisco Binâncio e Radagunda, esposa do rei Clotário. Cheguem a imprimir na carne, com ferros ardentes, o nome amado, para que fique mais visível e duradouro, como fizeram, movidos pelo amor, os devotos Batista Archinto e Agostinho de Espinosa, ambos da Companhia de Jesus. Façam ou pensem fazer tudo quanto pode fazer quem deseja mostrar, tanto quanto possível, seu afeto à pessoa amada: os amantes de Maria nunca chegarão a amá-la tanto quanto ela os ama.

Ponto VI

São Pedro Damião dizia: Sei, Senhora, que sois amantíssima e nos amais com amor invencível. Sei, minha Senhora, que, entre os que vos amam, sois a mais amante; amais-nos com amor que nenhum outro consegue vencer.

Certa vez o venerável Afonso Rodrigues, da Companhia de Jesus, estava aos pés de uma imagem de Maria. Sentindo arder seu amor pela santa Virgem, exclamou: Minha Mãe amabilíssima, sei que me amais, mas não me amais tanto quanto eu vos amo. Maria, como ofendida em questão de amor, respondeu daquela imagem: Que dizes, Afonso, que dizes? Quanto maior é meu amor por ti que teu amor por mim! Sabe que a distância do céu à terra não é tão grande quanto a distância entre meu amor e o teu.

São Boaventura tem, portanto, razão em exclamar: Felizes os que têm a ventura de ser fiéis servos e amantes dessa amantíssima Mãe! Felizes os corações que amam Maria! Felizes os que a servem! Sim, porque essa gratíssima Rainha nunca se deixa vencer em amor por seus devotos: Nunca a venceremos nessa disputa; ela retribui o amor e aumenta sempre os benefícios passados com novos. Maria imita nisso nosso amorosíssimo Redentor Jesus Cristo: com seus benefícios e favores, devolve em dobro o amor de quem a ama.

Eu também exclamarei com o enamorado Santo Anselmo: Por vosso amor desfaleça continuamente meu coração e se derreta minha alma. Arda sempre por vós meu coração, e toda minha alma se consuma de amor, ó meu amado Salvador Jesus, ó minha querida Mãe Maria. Já que sem vossa graça não posso amar-vos, concedei a minha alma, por vossos merecimentos, e não pelos meus, que vos ame tanto quanto mereceis. Ó Deus enamorado dos homens, pudestes amar até a morte os culpados diante de vós, e podereis negar, a quem vo-la pede, a graça de amar a vós e a vossa Mãe?

Exemplo. O padre Auriemma narra que uma pobre pastora que guardava os rebanhos amava tanto Maria que sua grande delícia era ir a uma pequena capela de Nossa Senhora na montanha. Enquanto as ovelhas pastavam, retirava-se ali para conversar com sua querida Mãe e honrá-la. Vendo sem ornamentos a pequena imagem esculpida de Maria, pôs-se a fazer-lhe um manto com o pobre trabalho de suas mãos. Certo dia, colheu flores no campo, fez uma grinalda e, subindo ao altar da capela, colocou-a na cabeça da imagem, dizendo: Minha Mãe, quisera pôr em vossa fronte uma coroa de ouro e pedras preciosas. Como sou pobre, recebei esta pobre coroa de flores e aceitai-a como sinal de meu amor. Assim, e com outras homenagens, a devota jovem procurava sempre servir e honrar sua amada Senhora.

Vejamos como a boa Mãe recompensou as visitas e o afeto de sua filha. Ela adoeceu e chegou perto da morte. Dois religiosos, passando por aquelas terras, cansados da viagem, repousaram sob uma árvore. Um dormia, o outro estava desperto; ambos, porém, tiveram a mesma visão. Viram um grupo de belíssimas jovens; entre elas havia uma que superava todas em beleza e majestade. Um deles perguntou-lhe: Senhora, quem sois? Ela respondeu: Sou a Mãe de Deus; com estas santas virgens vamos visitar, na aldeia próxima, uma pastora moribunda, que tantas vezes me visitou. Dito isso, desapareceram.

Os dois bons servos de Deus disseram: Vamos também vê-la. Seguiram caminho, encontraram a casa da jovem moribunda e entraram numa pequena cabana, onde ela jazia sobre um pouco de palha. Saudaram-na, e ela lhes disse: Irmãos, pedi a Deus que vos faça ver quem me acompanha. Ajoelharam-se imediatamente e viram Maria junto da moribunda, consolando-a, com uma coroa na mão. As santas virgens começaram a cantar; ao doce canto, aquela alma bendita separou-se do corpo. Maria colocou-lhe a coroa na cabeça e, tomando a alma consigo, levou-a ao paraíso.

AFETOS E ORAÇÕES

Ó Senhora que arrebatais os corações, vos direi com São Boaventura: pelo amor e pelos favores que mostrais a vossos servos, arrebatais-lhes o coração; arrebatai também meu pobre coração, que deseja amar-vos muito. Minha Mãe, com vossa beleza enamorastes um Deus e o atraístes do céu a vosso seio: viverei eu sem vos amar?

Não. Digo-vos com outro vosso filho amante, João Berchmans, da Companhia de Jesus: Não descansarei enquanto não possuir um terno amor para com minha Mãe Maria. Nunca quero descansar até ter a certeza de alcançar um amor constante e terno por vós, minha Mãe, que me amastes com tanta ternura até no tempo de minha ingratidão para convosco. Qual seria agora minha sorte, ó Maria, sem vosso amor e sem as tantas misericórdias que me alcançastes? Se tanto me amastes quando eu não vos amava, quanto mais devo esperar de vossa bondade agora que vos amo!

Amo-vos, minha Mãe, e quisera ter um coração que vos amasse por todos os infelizes que não vos amam. Quisera uma língua capaz de vos louvar por mil línguas, para dar a conhecer a todos vossa grandeza, vossa santidade, vossa misericórdia e o amor com que amais quem vos ama. Se possuísse riquezas, desejaria empregá-las todas em vossa honra. Se tivesse súditos, quereria que todos vos amassem. Enfim, por vós e por vossa glória, desejaria gastar a própria vida, se fosse necessário.

Amo-vos, portanto, minha Mãe; mas ao mesmo tempo temo não vos amar, pois ouço dizer que o amor torna quem ama semelhante à pessoa amada: O amor encontra semelhantes ou os faz. Se me vejo tão diferente de vós, isso é sinal de que não vos amo. Vós tão pura, eu tão manchado; vós tão humilde, eu tão soberbo; vós tão santa, eu tão iníquo!

É isso, porém, que haveis de fazer, ó Maria: já que me amais, tornai-me semelhante a vós. Tendes todo o poder de transformar os corações; tomai, portanto, o meu e transformai-o. Mostrai ao mundo o que podeis fazer em favor de quem amais. Santificai-me, fazei de mim um filho digno de vós. Assim espero; assim seja.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Le glorie di Maria (1750), Parte I, capítulo I, § 3, «Quanto è l’amore che ci porta questa Madre», pp. 35–54, incluindo exemplo e oração. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.